10 de abr de 2011

Dois de paus


Foto: du.r Maciel

O novo bom espetáculo da Cia Halarde

Dois de paus é o quarto texto de Arthur Curado, dramaturgo brasiliense, também ator na primeira encenação do espetáculo ocorrida em 2005. A produção gaúcha, dirigida por Paulo Guerra, acontece em paralelo a outras produções do mesmo texto no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, sendo que nesses últimos seis anos, em especial graças ao Projeto Palco Giratório do SESC, a história já viajou todo o país incluindo Porto Alegre no roteiro em maio de 2006. Produzido pela Cia Halarde, muito conhecida pelo espetáculo Dona Gorda, além de outros, Dois de paus conta a história de dois homossexuais que se conhecem pela internet e iniciam um relacionamento. Os espectadores acompanham, de forma não linear, as diferentes fases pelas quais os personagens Alex e Júlio passam: primeiro encontro, namoro, casamento... No elenco, estão os estreantes no teatro profissional porto-alegrense Dionatan Rosa e Guilherme Ferrêra.

Talvez a questão primeira mais importante a ser tratada seja o gênero. Porque se trata de dois personagens gays, o primeiro impulso é categorizar (para assim entender) como peça “gay”. Observar Dois de paus sob a ótica das cores, das dublagens, das comédias, da iconografia gay, elementos presentes em outros espetáculos que, por causa deles, facilmente poderiam ser assim classificados, faz com que a atenção se desvie bastante do objeto. Nele, nesse espetáculo, não há cores, tudo é preto, branco ou cinza (com exceção do peixe, que é vermelho). Também não há dublagens e nenhum ícone estético gay aparece ou é citado. Em termos de dramaturgia, nem exageros são passíveis de ser identificados. Assim, Dois de paus funciona melhor enquanto sistema narrativo se analisado como uma história dramática em que duas pessoas se conhecem e começam a namorar e conviver, sendo esse encontro o espaço para o aparecimento de conflitos humanos tão acessíveis ao mundo além da narrativa. Há aí uma questão: se, ao invés de dois gays, houvesse um homem e uma mulher, a peça teria feito e faria tanto sucesso como é o caso? A resposta é não. Todas as ações são simples e, por isso, dizem pouco ou nada enquanto tais. A história se perderia no marasmo de tantas outras milhares de narrativas que, ou vão para a questão da auto-ajuda nos relacionamentos contemporâneos, ou se tornam comédias românticas, essas, sim, sempre com um ponto original relevante capaz de interessar o espectador que já vivenciou (ou testemunhou) na sua vida uma historia parecida, mas nunca pensou nela sob esse determinado aspecto. Ou seja, se o fato de os dois personagens serem gays não interfere na obra na questão do conteúdo, com certeza esse é fator fundamental na viabilidade da produção. Ultrapassada essa reflexão inicial, falta evidenciar as conseqüências desse ponto de vista nas observações sobre alguns dos elementos do espetáculo que são fundantes para a fruição dele.

Dionatan Rosa (Alex) e Guilherme Ferrêra (Júlio) trazem bons valores à obra. Os dois personagens foram construídos de forma bastante próxima da realidade além da narrativa, isto é, foram contemplados os resultados de uma pesquisa não sobre um determinado grupo de gays, mas sobre a generalidade. Não há, assim, a exibição de um personagem afetado, tão comum nos estereótipos, mas também não há a fuga da afetação, o que consistiria num desvínculo com o ambiente da fruição. (O segredo de Brokeback Mountain, o filme, por exemplo, situa os dois personagens protagonistas num universo bastante longe da fruição, o mundo dos másculos cowboys, um lugar idealizado coerente com a altura das montanhas.) Alex e Júlio estabelecem uma relação romantizada, mas são, antes de tudo, personagens verticais, realistas. Um é fisioterapeuta e o outro é publicitário. Ambos têm mais ou menos a mesma idade. Um é geminiano e o outro é escorpionino. Um já assumiu-se como gay para para a família e o outro ainda não. Ou seja, Alex e Julio têm forte relação com os Rodrigos, os Marcelos, os Renatos, os Lucianos que são comuns de se encontrarem por aí. O que eles dizem, no entanto, é raro.

O discurso de Dois de paus é o lugar onde está a idealização ou o romantismo. As frases são bem construídas, as imagens são belas, as palavras são fortes e colocadas nos seus lugares depois de um prévio estudo de recepção. Ao escrever o texto, Curado não toca em ferida nenhuma, mas dá o beijo que leva à cura. E Guerra não mexeu nisso. Mais uma vez dando um exemplo de sua grande habilidade como diretor meticuloso que é, construiu personagens reais para dizer coisas irreais. O amor que os dois sentem um pelo outro poderia, sim, ser manifestado como está na peça por duas mulheres ou por um casal heterossexual. Mas a construção daqueles que dizem nos faz refletir sobre uma minoria da população mundial que se relaciona há muito tempo na marginalidade conseqüente do preconceito contra a livre orientação sexual. O beijo gay é igual ao beijo hétero, mas o fato de ser gay tem a força do desvelar de uma relação rara em sua exposição infelizmente. Assim, o que seria clichê na boca de dois personagens heterossexuais tem um sabor diferente na boca de dois personagens gays. E o fato das construções terem se mantido sem a força do idealismo, mas com o vínculo com o real faz com que a coragem de assumir quem é antes de assumir o que sente dê novas cores as onze situações que se sucedem na contagem da história.

Ainda sobre a dramaturgia e sua leitura pela direção cênica, é interessante notar como o jogo acontece. Na primeira cena, abrindo a peça já numa briga, o que é bastante delicado (e perigoso), os personagens discutem acerca de uma traição. Moralistas que somos, o traidor sempre é tido como vilão. Durante o espetáculo, no entanto, o jogo se inverte. Sem um final revelador, mas um arranjo finalizador que, de uma forma bastante inteligente (e contemporânea), convida o público para concluir a história, Dois de paus oferece uma bela reflexão tanto em sua semente literária, o texto de Curado, como na sua manisfestação cênica, a peça da Cia. Halarde.

Dois de paus tem dois problemas graves: Paulo Guerra erra a mão quando aparece mais que Curado nas concepções de cenário e de trilha sonora. O troca-troca de cenário, num colocar os praticáveis aqui e depois lá e depois acolá sem fim só não é mais irritante do que o abre e fecha de cortinas e abre e fecha de araras. Em alguns momentos, como na primeira cena, fica bastante claro que aquilo só está sendo feito para que algo esteja sendo feito em cena. Sim, teatro é ação. Drama é sinônimo de ação. Mas ações mais intimistas, mais discretas, menores, talvez ofereçam resultados mais coerentes que esses escolhidos pela direção. O mesmo se pode dizer da trilha sonora. Cheia de inserts, repetições de frases ditas nas cenas e coloridos, a trilha também não permite que o espectador se envolva com os personagens plenamente. Faltam silêncios, faltam espaços vazios em Dois de paus: lugares no tempo e no espaço em que quem assiste irá se colocar.

A expressão dois de paus vem do jogo de baralho, nomeando uma carta que, por ter um baixo valor, fica na mão do jogador ou na mesa sem ação, à espera de que algo aconteça. Há, no entanto, dois possibilidades de visão sobre quem está parado. Um deles, o que nos interessa, faz refletir sobre a imanência, a potência, a força acumulada esperando o start. O que vem a seguir é a ação. E ação aqui é parabenizar e aplaudir.

*

Ficha técnica:

Texto: Arthur Tadeu Curado
Direção: Paulo Guerra

Elenco:
Dionatan Rosa
Guilherme Ferrêra

Cenário e Figurino: Cláudio Benevenga
Trilha Sonora: Jean Presser
Iluminação: Anilton Souza
Design: Sandro Ka

5 Comentários:

paulo guerra disse...

Olá!
O Design é Sandro Ka
abraços

Anônimo disse...

fui assistir a peça ontem,e me surpreendi parabéns a todos, pois descobriram uma forma menos apelativa para encenar pois todos sabemos que em nosso meio parece que tudo gira em torno do sexo, os atores são exelentes souberam encenar muito bem, até me emocionei, espero que continuem fazendo peças assim inteligentes.
parabéns

Rodrigo Kão Rocha disse...

Fui assistir hoje, 17/04/2011, e fiquei tocado com a sensibilidade com que é tratada a história, fiquei emocionado em algumas cenas e ri muito em outras tantas. Nunca tinha visto a questão da homossexualidade tão bem levada à cena. Aplausos de pé para o meu amigo Dionathan, para o Guilherme (colega de cena de minha namorada em outra produção)para Curado, e para o Paulo Guerra, que não conhecia, continuo não conhecendo mas virei fã de seu trabalho. A temporada não é um sucesso à toa. É porque merece ser. Merda à todos!

Anônimo disse...

Adorei a peça e gostaria de saber nome das músicas e cantores que tocaram na peça. Please!!!!

ARTHUR TADEU CURADO disse...

Obrigado pela crítica!!!
Adorei!

Estamos estreando nova versão em Brasília esse mês.

Venha ver! :)

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