26 de out de 2010

Pum - histórias mal cheirosas

Foto: Emi PhotoArt

Muitos desafios vencidos pra pouco espetáculo

O espetáculo Pum – histórias mal cheirosas apresenta como proposta o trato acerca de uma princesa que tem problemas de gases. Atinge, ao final, o seu objetivo, o que é bom, mas só depois de driblar uma série de pequenos desafios desnecessários. O espetáculo não acontece entre as crianças e entre os adultos pela força de seus próprios obstáculos. Alguns deles serão apontados aqui.

Há um único cenário: uma caixa de quatro lados de mais ou menos um metro cada lado. Essa caixa se abre, se fecha e gira ao longo do espetáculo servindo de coxia através da qual os atores desaparecem quando seus personagens não estão em cena. Ela é feita de tecidos cujas estampas são preto e branco. Não há nenhum símbolo e o público vê sua estrutura de ferro. Fica claro que o objeto não explora nenhum sentido, não avança em nenhuma significação. Qual o desafio? Usar esse objeto de várias maneiras possíveis. Qual sua motivação? Narrativamente nenhuma. O objeto funciona como metalinguagem (o teatro falando do teatro) que os adultos entendem, mas que não faz relação com a história contada. Não é um castelo, não é uma sala, um quarto, um palco onde a princesa se apresenta. É só um painel. Também não há, na peça, um personagem que mudará de forma várias vezes e esse, aliás, também não é o tema em questão. Fosse, haveria a possibilidade de entender a caixa como metáfora desse suposto personagem. Ela está ali, gratuitamente, para o exercício do grupo em mostrar a quem vê que um objeto cênico pode ser usado de várias formas. Essa é uma conversa de atores para atores, embora a peça seja infantil e para todos os públicos.

Sobre a caixa, a atriz mostra o rosto. Nas suas frestas, mãos e pernas do ator, agora escondido, aparecem. A marca explora o fato da atriz se esticar e parecer bem maior do que é já que, numa ponta alta, está sua cabeça e, no extremo inferior, aparecem seus membros. A imagem é interessante, mas nada, ao longo da contagem da história, surge como para fazer relação com isso. O bonito fica pelo bonito. Como o uso da caixa, a cena é um elemento inútil, isto é, desnecessária para o espetáculo dramático que ainda não começou.

Um narrador adverte que a história começa após o “Felizes para sempre”, ou seja, inicia onde as histórias terminam. Não é verdade. Ao longo do espetáculo, vamos conhecer Florinda, uma princesa que derrotará um dragão e será conquistada por um príncipe. Nos segundos finais, ela se casará e terá um filho. A peça terminará com um “Felizes para sempre”, embora a frase não seja dita. A narração inicial é, assim, também desnecessária.

Na primeira cena, vemos a Ama e o Cozinheiro tratarem sobre o nervosismo da Princesa diante de sua apresentação no Show de Talentos do Reino. Quem assiste entende que a história começou. No entanto, a cena é longa, a atriz Ana Makki grita, o ator Matheus Chisté utiliza um sotaque meio italiano, meio espanhol e um tom de voz que será exatamente o mesmo em todos os personagens que virão (o rei, o apresentador, os candidatos a marido da princesa...), sem praticamente nenhuma alteração. Nem Makki, nem Chisté conseguem construir a verdade em cena.

Só há dois atores. O público adulto entende que um ator precisa ficar alguns minutos sozinho para dar tempo para o outro trocar de roupa e dar início ao próximo quadro. No entanto, o ritmo conferido pela direção é bastante lento. Muitas vezes, vemos que o outro ator já estava pronto ou nem mesmo precisava desse tempo estendido para se preparar. Cássio Schonarth, como diretor, não auxilia ele mesmo como autor.

O Show de Talentos finalmente acontece. Quando a Princesa não consegue cantar e solta um “pum”, o público que foi assistir a uma peça chamada “Pum” entende porque está ali. Sendo o esse o conflito principal, por que não está logo na abertura?

Então, aparece o melhor personagem de toda a história: o dragão. Cansado de comer brócolis, ele agora quer comer princesas. O público vê um boneco e ouve sua voz em off. Sua voz tem cor e o boneco tem expressão. Torce-se por esse vilão, ri-se com ele, brinca-se. É divertido vê-lo em cena. Vários cavaleiros tentam destruí-lo e nenhum consegue. Florinda, bastante triste, resolve entregar-se em sacrifício. É o melhor momento do espetáculo, embora já sabemos o que vai acontecer. A princesa solta um pum que espanta o dragão. Mas a peça não termina aqui.

Se a primeira história é o fracasso no Show de Talentos, a segunda é a Princesa e o Dragão. Uma nova história, a terceira, começará: a Princesa quer se casar. E o pai lhe concede esse pedido após vê-la cantar. A produção do espetáculo fez uma versão de Single Ladies para a música “Eu soltei um pum”. A coreografia do grupo tem muitas referências com os movimentos de Beyoncé, embora lá girar a palma da mão significa mostrar a aliança que difere as single ladies (mulheres solteiras) das married ladies (mulheres casadas), e aqui não há nenhum significado realmente explorado.

Um rol de príncipes surge até que o ideal aparece. Ele se chama Florêncio. Florinda se casa com ele e os dois têm um filho. Os gases da mãe combinam com uma certa característica do príncipe escolhido (que esse texto não vai revelar). O filho, Floriano, também terá uma característica. A nova família se despede da plateia criança e da plateia adulta. A peça termina.

A investida do grupo na produção do espetáculo, infelizmente, não é a mesma no espetáculo como se vê acima. Do lado de fora, há um espaço para as crianças brincarem, tirarem fotos com os personagens e se divertirem de forma inteligente. O programa do espetáculo vem num saquinho (de vômito?) e, com ele, um prendedor. A forma como a recepção, o visual foi planejado é interessante e rica. O senão é que apontam para algo que, como se disse, somente acontece no palco, após esforços desnecessários tanto de quem faz como de quem assiste. Vale elogiar o figurino que, como a produção, enriquece o trabalho.


Além disso, fiquemos na discussão: soltar pum e arrotar, ainda que gestos humanos e, por isso, naturais, não são mesmo falta de educação? Para mim, sim.


*

Ficha Técnica

Roteiro e Direção: Cássio Schonarth
Cenografia: Makki Produções
Figurino: Leopoldo Schneider
Maquiagem: Makki Produções
Iluminação: Anderson Zang
Trilha Sonora: Tiago Heinrich
Projeto Gráfico: Matheus Chisté
Produção: Makki Produções
Elenco: Ana Makki e Matheus Chisté

1 Comentário:

Moacir disse...

Fui ontem assistir ao Pum, e lembrei de um fato que me aconteceu,quando levei meu filho de 6 anos para assistir uma peça infantil; na época assisti ao espetáculo como um adulto e como um artista. Após o espetáculo eu e mais colegas de profissão saimos comentando os pontos fracos do espetáculo, tipo, eu não gostei disse nem daquilo e imediatamente fomos interrompidos pelo meu filho de 6 anos "Mas vocês não tem que gostar,a peça é infantil e quem tem que gostar somos nós crianças!!" A partir deste dia nunca mais assisti a uma peça infantil com o olhar crítico de um adulto, mas sim com a alma pronta para diversão. Ontem ao assistir Pum, novamente confirmei está tese, pois vi as crianças se divertirem muito com o espetáculo, principalmente quando a princesa solta seu pum e o príncipe seu arroto !!!! Porisso os gestos humanos demonstrados na peça, "Soltar Pum e arrotar" em momento algum incomodam a platéia.
Parabéns ao grupo pelo teatro não acadêmico, sem a preocupação da técnica, técnica e técnica acadêmica que muitas vezes é tão egoísta que esquece que o público necessita de sentimento verdadeiro no palco e não somente técnica.

Moa Junior

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