11 de out de 2010

Árvore em fogo

Foto: Kiran Léon

Contrastante

O fato sincero é que eu não entendi a peça. Durante todo o tempo, fiquei tentando me aproximar do espetáculo, fazer relações, dialogar ou mesmo refletir. Não consegui.

A Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta Favela entra no espaço escolhido como cênico em procissão, como todo grupo que opta por uma montagem de teatro de rua tradicional. Tem um estandarte com o nome do grupo, um carrinho, seus figurinos/maquiagens são vivos. Cantam, dançam, tocam instrumentos e avisam: “Pode chegar mais perto que a brincadeira vai começar!”. Curiosos desistem de seguir o seu caminho para atender ao convite. Não é preciso fazer alguma pesquisa para saber que é a menor parte das pessoas a que saiu de casa especialmente para ver o grupo se apresentar. E é nesse fundamento que se encontra o cerne do teatro de rua: a cena invade o espaço público que não é seu originariamente. O transeunte vira espectador por dois minutos, um olhar, a duração inteira do espetáculo. O chão duro torna-se palco, o espaço se torna cenário, os atores convivem com as intempéries do urbano: mendigos, sujeira, barulho, mudanças climáticas, transtornos de todas as espécies. A Cambada opta por não marcar o chão, não delimitar fisicamente o seu espaço em separado e, no espetáculo “Árvore em fogo”, usa o mendigo sem nenhum desacréscimo, embora também não lhe dê nenhum significado. Formalmente falando, todas as bases estão fundadas logo no início: uma história vai ser contada (como em qualquer teatro), mas, para sua contagem, serão recuperados todos os elementos que o espaço (aberto) urbano provê, incluindo a certeza de que quem assiste não necessariamente fique do início ao fim, mas, talvez, apenas permaneça alguns minutos em qualquer lugar dessa duração.

Diante disso, o que se vê?

“Árvore em fogo” parece contar a história de Bertolt Brecht. Há um bebê e uma relação com um cachecol de lã vermelho. Fala-se em Alemanha e em Nazismo. Placas com os nomes de algumas de suas peças aparecem: “A decisão”, “A alma boa de Setsuan”, “A ópera dos três vinténs”. Fala-se em guerra também. Aparece uma figura meio parecida com o Superman, com a MacDonalds e Coke escritos na capa vermelha. Então, qualquer um percebe que o tema gira em torno de Estados Unidos e Alemanha, um poeta/dramaturgo e a II Guerra Mundial, essa clarificada pelo Nazismo: uma caveira em preto e vermelho.

Mas afinal: qual é a história do espetáculo? Ou a quem ele é realmente é dirigido?

Usei meus conhecimentos prévios para reconhecer, numa troca de cenário, uma mulher carregando uma carroça e ver isso como uma referência à “Mãe Coragem e seus filhos”, outra peça de Brecht. Assim também como reconheci Marlene Dietrich cantando “O anjo azul” (embora não esteja muito certo disso). Mas quero lembrar que, sendo Brecht um dramaturgo, ele faz parte da minha vida pessoal e profissional, que não é nenhum pouco mais privilegiada em relação a quem tem referências de economia, estética, culinária, esportes, construção civil, varejo ou seja lá todas as referências das pessoas que, casualmente ou não, se encontram na rua no momento em que o teatro a invade. Por isso, me pergunto: por que esse espetáculo se apresenta de forma tão difícil? Por que tantas metáforas complicadas? Por que as coreografias apresentam sentidos sem relação direta ao que está sendo cantado/tocado? E, por fim, onde está a “Árvore em fogo”?

É um erro achar que ser direto é desconsiderar a capacidade da rua de compreender algo mais aprofundado. Ser direto ou ser difícil é uma questão formal e não de conteúdo. O conteúdo pode ser ideológico, politizado, religioso, ecológico e etc., assim como a forma também é uma opção comunicativa do grupo que escolhe produzir um espetáculo. Ao olhar para o programa, distribuído no final da encenação, vemos a intenção do grupo de se comunicar com as classes menos favorecidas no sentido de refletir a condição social em que todos estamos. Mas, diante do como o espetáculo se constrói, não há outra conclusão se não avaliar que o Grupo não atinge o seu objetivo ao encher a sua produção de obstáculos que, por se apresentar na rua, já teria por si só muitos desafios naturais do próprio espaço. Embora de cunho popular, por fim, a produção é elitista.

Devo dizer, contudo, que, felizmente, muitas pessoas assistiram do início ao fim o espetáculo junto comigo. Assim como o grupo, estou eu, agora, me contradizendo? Uma vez que o espetáculo é difícil, não seria lógico as pessoas perderem o interesse e irem embora? E, se não vão, será que ele é realmente difícil? A questão de que trato aqui é a forma da forma. Repito: com um tema absolutamente próximo do público e do lugar em que ele se apresenta (os desafios sociais), o Levanta Favela traz um espetáculo distante pelo grande número de metáforas, por um palavreado rebuscado, por movimentos não facilmente relacionáveis e por referências cujas identificações são privilegiadas. No entanto, todas essas escolhas estéticas da forma são assumidas com graça pela direção e apresentadas por bons atores, bons músicos e artistas cheios de carisma.

Karitha Soares e Sandro Marques são destaques num elenco que se destaca como um todo. Em nenhum momento, perdem o ritmo, dispensam o olhar, enfraquecem. Cada ato é assumido com vibração e isso faz com que a rua pare para lhes assistir e ouvir, esforçando-se, como eu disse, para entender a que vieram. A rua volta a ser apenas rua quando a peça termina, mas a energia que esses atores e todos os seus colegas deixaram ali permanecem em quem constrói a rua, ou seja, nós mesmos.

Posso não ter entendido a peça, mas, com toda certeza, é visível a importância dela para os atores. E, se eles assim a valorizam, por que também nós, ou eu, não haveremos de atender a essa dedicação contagiante?

*

Ficha Técnica:

Direção, trilha sonora, figurinos e adereços: criação coletiva da Cambada.

Elenco:
Ana Ebehardt (Helene Weigel e Sophie Brecht);
Danielle Rosa (Paula Banholzer);
Denise Souza (Elizabeth Hauptmann);
Gil Santos (Becher, Frank Brecht, voz de Hitler e Truman)
Hariná Marques (Bárbara Brecht)
Kacau (Karitha) Soares (Ruth Berlau)
Robson Reinoso (Walter Benjamin, Bertholt, professor, locutor e Hitler)
Sandro Marques (Brecht);

Colaboradora: Paula Lages.

Seja o primeiro a comentar

  ©Template Blogger Green by Dicas Blogger.

TOPO