24 de out de 2010

Clube do fracasso

 Foto: Alex Ramirez

Missa do fracasso

O novo espetáculo da Cia. Rústica se chama Clube do fracasso e sua dramaturgia apresenta uma interessante estrutura que, em tudo, se parece com uma missa. Vejamos.

1 – Saudação:
O comentarista que representa a comunidade e o padre saúdam os fiéis. O sinal da cruz realizado por todos marca todos como uma só assembleia, um só povo. A missa é uma festa em que os convidados devem se sentir bem-vindos.

O discurso inicial do espetáculo, que vem após de um cálice de bebida já na entrada, se esforça em dizer que todos estamos ali, participando desse clube, dessa reunião, dessa associação, porque todos temos algo em comum, afinal, todos, alguma vez na vida, fracassamos. A primeira atitude da peça é jogar o espectador para dentro de sua proposta, falar de igual para igual, congregar, confraternizar. Nessa assistência, é importante que todos se sintam abraçados, à vontade em ser o que são.

2 – Ato Penitencial:
O sacerdote chama a todos para, juntos, confessarem seus pecados, suas culpas, suas falhas. O padre eleva esse pedido a Deus e, em nome Dele, perdoa os pecados.

Um a um, os atores, através de seus personagens (que se confundem, expressando ainda mais o ar de confraternização e se utilizando disso para construir teatro num diálogo bastante próximo com a realidade), contam suas histórias, relatam os seus fracassos na infância e nas relações amorosas, expurgam seus fantasmas. Imediatamente o público, já em catarse, começa a fazer o mesmo silenciosamente.

3 – Glória
Livres do pecado e da culpa, a comunidade canta um hino de agradecimento.

Os atores/personagens propõem um brinde. Um brinde ao fracasso, esse através do qual, e por causa de que, muitos se tornaram conhecidos e são considerados vitoriosos: Van Gogh, Madame Satã, Janis Joplin, Marilyn Monroe, Edith Piaf, e outros são citados verbalmente, através de videos e composições corporais dos atores.

4 – Oração da Coleta
O padre termina a primeira parte da missa elevando ao altar as nossas intenções pessoais para esse encontro.

O espetáculo nos pergunta quais são os nossos quereres. O que você mais queria ser? Um personagem se veste de bailarina, outro de super herói, outro de palhaço... Os atores caminham entre o público cochichando ao ouvido a pergunta: O que você mais gostaria de ser?

5 – Liturgia da Palavra
Uma leitura do Antigo Testamento, um Salmo para meditação, uma leitura do Novo Testamento e o Evangelho. Homilia (sermão),que é quando padre deve aproximar as leituras feitas de um assunto que seja pertinente à assembleia. Oração do Creio em que todos reafirmam crer em Deus e na Igreja Católica. Preces da comunidade.

O espetáculo dirigido por Patrícia Fagundes se utiliza de um Power Point e explica o segredo do sucesso. Aparentemente, o fracasso sai de cena e entra o sucesso em seu lugar. Na verdade, é uma forma de explorar o fracasso pelo seu oposto. Argumento de autoridade é requisitado. Os cinco fracassos básicos são ganham importância na dramaturgia. As fraquezas dos atores/personagens entram em jogo como para dizer que, provavelmente, continuarão havendo fracassos.

6 – Liturgia Eucarística
Ofertório, que é quando todos oferecem ao altar aquilo que tem para ser oferecido (talentos, dízimo, capacidades). Consagração, o ponto alto da missa, quando hóstia e vinho se tornam corpo e sangue de Cristo. Comunhão, o ápice, quando todos compartilham da mesa do altar. Ação de graças, o momento de agradecimento final.

Quando as fraquezas entram na dramaturgia, já é tempo de não haver mais distinção entre as histórias encenadas e as histórias pessoais de cada pessoa sentada na platéia. A Cia. Rústica conseguiu o contato máximo que é possível entre o palco e a assistência sem usar, ainda bem, do recurso de dar a palavra para o público. O fracasso foi tornado algo positivo, algo que nos une, algo que nos impulsiona a seguir em frente e continuar vivendo. Um biscoito da sorte é oferecido aos presentes. Há um biscoito para cada quatro pessoas, o que obriga quem recebe a repartir o que tem. Cartas são lidas, músicas são cantadas e o público se sente falando através dos atores/personagens. É hora de falar consigo mesmo e fazer as pazes consigo mesmo. É o momento da redenção.

7 – Ritos Finais
O sacerdote oferece a benção final. O sinal da cruz é feito novamente e todos vão embora.

O espetáculo termina com uma música que abençoa os fracassos, dá o seu aval para as falhas que continuarão acontecendo. A zebra, um cavalo que não deu certo, surge como símbolo. Aplausos. Fim.

A missa católica é muito parecida com todos os ritos religiosos de todas as religiões, incluindo as orientais e as africanas. Sua estrutura é uma evolução do método de evangelização que, por sua vez, faz parte da tríade evolutiva: ver, julgar e agir. Ou, então, plantar, colher, alimentar-se. Ou Sexta Feira Santa, Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa. Ou conflito, desenvolvimento e resolução. Infância, adultez e velhice. E assim por diante. Ao construir um espetáculo com esse formato áureo, a Cia. Rústica oferece ao seu público um espetáculo popular, comercial, de auto-ajuda. Não há absolutamente nada de mal nisso, considerando que as reações são espontâneas: você ri e gargalha, você pensa e se emociona.

O tema fracasso é, talvez, o maior ganho da cidade com essa estreia. O grupo foge do clichê relacionamentos afetivos e avança tratando de uma questão bastante em voga em ano que deu a Glee o prêmio de “a série do ano”, por justamente, tratar dos fracassados, dos fracassos, das fraquezas e suas conseqüências. O debate não está superficial, a escolha por um discurso mais dissertativo que narrativo vence o desafio do tédio e o ritmo subverte o tempo assim como o espaço diminui as fronteiras com o público. A escolha pela emoção impede que a análise se estabeleça plenamente e descubra falhas porque embassa o olhar de quem vê. Em outras palavras, toda e qualquer falha na interpretação, ou incoerência nas direções de cenário, figurino, luz e trilha, se houver, pode ser vista como mais um acerto nesse todo que trata justamente das falhas.

Clube do fracasso, com um elenco estrelar (Francisco de Los Santos, Heinz Limaverde, Lisandro Bellotto, Marina Mendo e Priscilla Colombi) e uma ficha técnica não menos invejável, mostra que o teatro está vivo e é livre o suficiente para tratar bem de qualquer tema. Além disso, como um produto artístico, participa do grupo dos grandes espetáculos do ano com a missão de arrebatar multidões e conquistar até mesmo aqueles que são poucos acostumados com a linguagem teatral. E tudo isso porque sua primeira preocupação é utilizar a linguagem do público e deixar que ele construa a sua assistência, viva a sua vida e frua a obra do modo que quiser.

Não há melhor forma de recarregar suas energias do que colocá-las a disposição de um grupo, de uma assembleia, de uma reunião em que grandes transformações encontram espaço para acontecer, incluindo hóstia em carne, problemas em resoluções, fracassos em sucessos. Nas suas intenções e nos seus resultados, o espetáculo que inaugura o Estudionave, um novo local artístico na cidade, merece ser visto, aplaudido e muito bem tratado.

*

Ficha técnica:

Direção: Patrícia Fagundes

Elenco:
Francisco de Los Santos
Heinz Limaverde
Lisandro Bellotto
Marina Mendo
Priscilla Colombi
Cenário: Álvaro Vilaverde
Trilha sonora e preparação vocal-musical: Simone Rasslan
Figurinos e Adereços: Heinz Limaverde
Assistência de figurinos: Francisco de Los Santos
Composições e pitacos corporais: Cibele Sastre
Captação e edições de imagens: Fábio Lobanowsky
Iluminação: Cláudia De Bem
Produção executiva: Morgana Kretzmann e Lisandro Bellotto
Direção de produção: Patrícia Fagundes

1 Comentário:

Morgana Kretzmann disse...

ARRASOU GATÃO!

QUERO TE COLOCAR NOS MEU BLOGS LÁ NA MINHA PAGINA E NÃO CONSIGO.
COMO FAÇO?
(LOIRA, CLOWN)

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