12 de nov de 2011

Uma aventura farroupilha (março de 2006)


Foto: divulgação

Partir é só o começo de chegar

A nova produção da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais pode, como toda boa história, ser resumida numa só frase: A história de um menino que procura o seu irmão. Uma sentença simples de cujos significados saem “Uma aventura farroupilha”. Convém a nós descobrir as texturas que esses sentidos ganham ao sair ao mesmo tempo de um livro, de um texto e de uma equipe talentosa de cabeças pensantes.

Ao pôr a frase num ampliador, descobrimos que o menino é um colono vindo com seus pais da Alemanha. Também que o irmão precisa ser procurado porque fugira de casa para se juntar às tropas dos revolucionários liderados pelo Cel. Bento Gonçalves. E aí, nesses dois avanços, já descobrimos duas faces de uma mesma época, a metade do século XIX: tempo de colonização européia e tempo da Revolta dos Farrapos. O lugar? O Estado do Rio Grande do Sul.

Dada a história, passemos ao contador, ou melhor, aos contadores. O grupo Oigalê é formado por seis atores que há sete anos produzem espetáculos baseados em contos e lendas da região sul. “O Negrinho do Pastoreio” e “Deus e o Diabo na terra de Miséria” são fortes exemplos da preocupação que mostram ter com um trabalho de qualidade, e que tenha em seu interior a difícil mistura de elementos folclóricos, muita criatividade e um carisma reconhecível. O resultado disso pode ser visto no conjunto de apoiadores e patrocinadores que, apesar da situação difícil que vários grupos da capital convivem, acreditaram no sucesso da idéia baseados na responsabilidade que a marca Oigalê orgulhosamente sustenta.

Sediados num espaço que é também destinado a outros grupos teatrais no Hospital Psiquiátrico São Pedro, o grupo pode ser mais facilmente encontrado nas ruas, cercados por uma trilha de erva-mate, sobre pernas-de-pau e objetos, que se tornam outros objetos num ritmo perpassado pelas idéias que eles vão colecionando acerca de como contar bem uma boa história com apenas o absolutamente necessário. E, em meio a tudo isso, descobrimos “Uma aventura farroupilha” como uma exceção no repertório dessa importante trupe.

A nova montagem se destina e é apresentada em sala escura, o que exige uma linguagem diferente da que o grupo está habituado. Em linguagem, incluímos novo pensar a respeito da composição de cenário, figurino, luz e trilha sonora, mas, sobretudo, da composição dos personagens e da movimentação de cena.

Diferente das outras montagens, que começam pelo refrão “Oigalê, Oigalê, Oigalê!”, esta começa pelos tradicionais três toques de campainha, sendo que, já no primeiro, assistimos à entrada dos músicos. A história inicia na elevação de uma casinha, que nos remete à família alemã, cuja história será o mote para o espetáculo. Mas a beleza poética de elementos de cena tão lindos como a própria casinha e seus moradores – a carta-pergaminho, a mesa que se torna barco e depois carroção e as cinco lanças que se tornam barras da prisão – têm seu sentido disperso no conceito de funcionalidade em que se prendeu a direção. O mesmo aconteceu com a movimentação dos atores, que deixam transparecer às vezes um imenso vazio de significado artístico, esse sufocado pela técnica a la Broadway do entra e sai de coisas e troca de roupa do elenco.

A criatividade em excesso é difícil de manter por todo o espetáculo, que não vai num crescente como deveria, já que é difícil superar uma casinha de onde sai fumaça pela chaminé e uma mesa que tão belamente transporta a família alemã à Colônia de São Leopoldo em 1838. Efeitos visuais como esses só encontraremos mais tarde, na figura do Cel. Bento Gonçalves, que nos faz lembrar o mágico de “O mágico de Oz”. Há um duelo imperioso (e desleal) entre os atores com seu talento exposto de forma diferenciada, e a imagem que se convenciona construir a cada segundo de espetáculo.

Excelente a interpretação de Vera Parenza, com certeza a melhor figura da narrativa. Seu olhar por entre a luz do lampião, enquanto mãe alemã, é o que mais eficientemente resume o refrão “Partir é só o começo de chegar. Chegar é só o começo de viver!”. É o instante em que nos lembramos de que todo o resto só é importante enquanto for apenas resto. E as crianças, principal público-alvo (o espetáculo está em cartaz no horário das 16 horas), vibram com os restos ao mesmo tempo em que, de forma inconsciente, sentem a energia quando esta vem.

Movimentos como o do Conde caminhando sobre a mesa dos Schmitt, ou o do Cel. Picucha cavalgando em sua “Docinho” – sem esquecer da cena da batalha, quando os revolucionários perdem para os imperiais – divergem de marcações duvidosas, como a cena de Franz e Kurt conversando a respeito da guerra lida nos jornais de Herrmann, da laçada de Franz por Juvêncio, de Ana Maria e seu lençol, das lembranças de Franz ao voltar pra casa e ainda do encontro tão esperado dos irmãos, todas elas campo fértil para um lirismo que não chega a aparecer. Falta motivação narrativa na composição da história de cada personagem, e sentimos também a ausência do que se convenciona marcante para o espetáculo desde o seu início: os grandes efeitos visuais, estes produzidos pela presença ritualística de acordes bem dados e elementos cenográficos bem transportados.

No elenco masculino, destaca-se a interpretação de Carlos Alexandre, que, procurando fugir dos opostos de que está rodeado, caras e bocas canastronas de um lado e inexpressividade de outro, constrói figuras que não são meramente artificiais, mas que, em sua simplicidade, buscam resumir a essência do espetáculo. Chama a atenção o “seu” Conde, o amigo Floriano e o oficial inglês.

Bem como os figurinos, a dramaturgia atende às expectativas e é digna de elogios. A riqueza da história, contada desde o início para crianças, renova o conceito de ingenuidade através de roupas que passam por guerras sem perderem a cor e o brilho, e dos dois irmãos que se encontram por acaso numa venda de beira de estrada. Não poderia ser diferente, já que convém a humanidade a manutenção dos sonhos nas crianças e também nos adultos. Excelente a incursão de uma proprietária do que podemos chamar de “Casa de Tolerância”, bem como a reflexão sobre o acordo assinado em “Ponche Verde”, o que mostra os diferentes níveis de compreensão que a história inicialmente escrita pelo imortal Moacyr Scliar guarda em si.

Trilha sonora e iluminação são recursos que prescindem dos atores. A trilha é muito bem tocada e cantada ao vivo pelos atores (com destaque à cena de Garibaldi e Anita em que o mesmo acordeon é usado conjuntamente por Vera Parenza e Vinicius Petry), que nem sempre estão disponíveis para isso. Há grandes momentos de silêncio em cena, quando nossos ouvidos sentem a falta das vozes. Ótima a interpretação de “Nun ade, du mein lieb Heimatland” por Fernanda Beppler, que interpreta, nesse momento, o jornaleiro alemão Herrmann. Destoante a interpretação da música final, quando a expressão facial de alguns atores mostra que nem todos sabem a letra e outros parecem não gostar dela. Quanto à iluminação, a análise dela reporta o que já foi dito acerca da má utilização dos grilhões da funcionalidade.

Muito interessantes são os recursos de sombras utilizados na contagem da história. Único fim da presença do fundo branco (que expõe e esconde a presença do Cel. Picucha e que também quebra o ritmo das entradas e saídas dos atorem em cena), as imagens dos animais (cavalos, coruja, cobra...) e a cena da conversa de Franz com seu pai são, com certeza, um dos momentos mais carismáticos desse espetáculo. Junto a isso, lembramos do boneco de Franz, que é um forte referencial de toda a docilidade que o Oigalê pretende para esse espetáculo.

Enfim, na dicotomia entre fantasia e realidade, ficamos com o talento do grupo Oigalê e com a apropriação de uma frase dita em cena: “Ser corajoso é também trabalhar com teatro orgulhosamente gaúcho!” Palmas para o Oigalê pelos sete anos de vida e nosso agradecimento por mais essa montagem, que certamente terá muitos anos de vida, para o nosso benefício!

*

Ficha técnica:
Texto: Moacyr Scliar
Dramaturgia: Taís Ferreira
Direção: Ramiro Silveira
Elenco: Carlos Alexandre, Fernanda Beppler, Giancarlo Carlomagno, Hamilton Leite, Vera Parenza e Vinícius Petry Preparação para teatro de sombras e bonecos: Paulo Martins Fontes Trilha sonora: Cristiano Hanssen
Ilustrações: Rodrigo Rosa
Assessoria histórica: Tau Golin
Figurinos: Heinz Limaverde
Cenário e adereços: Zoé Degani
Arte gráfica: Vera Parenza
Criação de luz: Giancarlo Carlomagno
Produção: Oigalê CAT

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