20 de nov de 2011

Gestos e Restos


Foto: Fábio Zambom

Quando a gente se sente bem vindo!

“Gestos e Restos” é o novo espetáculo do NECITRA – Núcleo de Estudos e Experimentações com Circo e Transversalidades. Com concepção, direção e única atuação de Diego Esteves, é fácil reconhecer na produção, além do teatro, a influência das artes circenses e da dança. O todo é a construção de um universo sutil, delicado, frágil, que estabelece a poética por vias bastante peculiares que motivam essa análise a pensar sobre o objeto e não apenas descrevê-lo criticamente.

Diego Esteves, vestido com um macacão azul (a concepção de figurinos é dele e de Genifer Gerhardt), entra de cara limpa, isto é, sem maquiagem aparente, carregando uma caixa em que se lê: “Frágil”. Dela ele tira alguns objetos que dispõe no palco. Esteves faz ouvir o ritmo de sua respiração e esse é o primeiro sinal de que há algo na concepção que manifesta uma obra não-realista, ou seja, distante da realidade além da narrativa. Quando a assistência contempla o ator concretizar um personagem que tem dificuldades de unir os diferentes pedaços de canos d’água (PVC), relacionando os movimentos que os objetos “parecem” fazer com a trilha sonora pontual de Yano Laitano, é que o clown surge aos olhos da plateia. Clown é um personagem especial para a tradição teatral porque é também um gênero narrativo. Nele, o conflito nasce a partir de uma relação de oposição entre o personagem e o tempo que a situação estabelece. É como se os ponteiros do relógio tivessem sido parados por alguma ação desencadeada pelo personagem ou em sua presença e ele não sabe como lidar com isso. No caso de “Gestos e Restos”, o personagem de Esteves luta contra o sistema que regula a articulação entre os canos e/ou sua vivaz capacidade de agir a guisa do esforço humano. O primeiro de três atos da peça encerra e o espectador já tem instrumentos suficientes para reconhecer-se dentro de um universo poético, que tem resultados positivos, não só no trabalho interpretativo, mas também nas questões plásticas: iluminação, figurino e objetos de cena, na sua coerente discrição, acertam por colaborar positivamente no sentido de estabelecer a concentração dos sentidos e não a sua divergência.

Na segunda parte, Esteves está vestido em pijamas e vê televisão. Mais uma vez, a situação prega-lhe uma peça: a energia elétrica acaba e ele tem que lutar contra o tempo então estacionado. Bolas surgem e as habilidades malabares do artista encontram momento oportuno para serem vistas. A fragilidade apontada no parágrafo de abertura torna-se uma certeza quando alguns “truques” que deveriam fazer com que certas ações fossem surpresas são descobertos pelo espectador atento. Ao mesmo tempo, o carisma de Esteves, diante da necessidade (?), se mostra como seu aliado quando ele encara o público, interage com ele e brinca com as próprias falhas, lançando sinais de que talvez elas não pertençam a ele, mas ao personagem/figura que ele interpreta. (São bons atores aqueles sabem que tudo o que é feito em cena significa e, por isso, são atenciosos aos mínimos detalhes de sua estada no palco.)

Desde o início e através das cenas, participam da narrativa depoimentos orais que a assistência ouve e reconhece como sendo de pessoas diferentes e de idades diversas, bem como os temas. No terceiro ato, através de uma caixa frisada, ouvimos um texto recortado proferido por Esteves cujo corpo só vemos partes. O tempo ganha força como elemento que marca a proposta argumentativa/narrativa do espetáculo do ponto de vista da sua forma (a relação da figura com as ações que ele produz/participa) como também do seu conteúdo (o “sobre o quê” é esse espetáculo). A imagem final é tocante.

“Gestos e Restos” agrada pela sua simplicidade, pela sua pobreza, pela sua gentileza. Não há entraves que tornem difícil estabelecer relações de sentido na percepção do que acontece em cena sob os refletores. Quem está na plateia se sente bem-vindo não penas pela situação social em que se encontra, mas sobretudo pelos recursos estéticos que a peça traz ao longo do tempo de sua encenação. Diego Esteves, que teve orientação de Paulo Guimarães, e seu grupo estão de parabéns.

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Ficha técnica:

Concepção, direção e atuação: Diego Esteves
Orientação cênica: Paulo Guimarães
Coreografias: Diego Esteves
Trilha original: Yanto Laitano
Cenografia: Diego Esteves e Karla Dufech
Figurino: Diego Esteves e Genifer Gerhardt
Produção: Ana Luiza Ferreira e Mônica Marin
Orientação de percussão: Anderson Amaral

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