10 de out de 2011

Piratas


Foto: divulgação

Aventura cambaleante

“Piratas” é uma história de aventura. Dois amigos vão passar as férias numa casa antiga, onde, atualmente, funciona uma pousada. Histórias de piratas que viveram por ali há séculos chegam aos ouvidos dos dois garotos. Um deles, neto do antigo e recém falecido dono do lugar, recebe um antigo medalhão como herança. Entre as brincadeiras e os mimos que a tia, a atual administradora, lhes presta, ambos farão novos amigos. Dirigidos por Airton de Oliveira, o grande elenco é composto por Davi Borba, Dejayr Ferreira, Jadson Silva, Juliano Bitencourt, Paulo Adriane, Juliano Canal e Sandra Loureiro. De um modo geral, as situações não impedem que a aventura aconteça, mas vale apontar que o ritmo na sucessão das cenas é cambaleante.

Falta agilidade em “Piratas” e, sem ela, a aventura não se estabelece a contento. Os personagens interessantes que existem não são o suficiente para o estabelecimento do ritmo de que o gênero precisa. O resultado é uma peça que evolui em blocos disformes, atravessando o tempo com uma prejudicial irregularidade. Todas às vezes em que o ritmo cai, a verossimilhança se prejudica, as informações se soltam, a assistência perde o foco e a conversa paralela acontece. Nessa montagem, o texto dos diálogos, que é assinado por Jadson Silva, é o culpado pela quebra prejudicial de ritmo. Muitas frases são longas, vários dados se repetem (numa cena, é dito três vezes exatamente a mesma coisa) e, nessas ocasiões recorrentes, o tempo se arrasta. O linguajar rebuscado, por exemplo, é desnecessário uma vez que traz a época da peça (início do século XX) que o público já reconheceu através do figurino, da decoração, do tipo de aparelho de telefone. No realismo fantástico, esse é gênero narrativo em que se inscreve a encenação, as informações devem ser amarradas de tal forma a ponto de acontecerem como se fossem verdadeiras, ou seja, reais. A produção, porém, se negativiza quando não encontra outras formas de entrelaçar os diversos signos sem precisar ratificar tantas vezes suas bases.

O elenco apresenta boas construções, concretizando figuras marcantes. David Borba e Jadson Silva interpretam os protagonistas. Assim como todos, eles dão a ver personagens que surgiram a partir da idealização: crianças têm a voz mais aguda e são mais ágeis, piratas são mais ardilosos e a tia é bondosa. O grupo se divide em três: os dois meninos e a tia, o pirata protagonista e os três piratas antagonistas. Na evolução da narrativa, os grupos se unem, se modificam, o que é bastante positivo. Quanto às interpretações, não há destaques negativos, mas, de forma elogiosa, deve-se tratar de três aparições: Sandra Loureiro, Dejayr Ferreira e Paulo Adriane. Desde 1998, na montagem “A Torre” dirigida por João Castro Lima, o público gaúcho não conferia o trabalho de Sandra Loureiro, que retorna agora com grandes contribuições: firmeza na sua presença cênica, texto dito sem rodeios, foco, precisão nas marcas. Dejayr Ferreira põe à disposição do trabalho o seu tom de voz característico, tornando o seu malvado Pirata, no momento certo, nem tão malvado assim. Paulo Adriane, talvez o único responsável pela comicidade explícita da peça, auxilia na construção de quase todos os melhores momentos de “Piratas”, agregando valores bastante positivos à produção.

Além dos diálogos, há outro aspecto repetitivo em “Piratas”, contribuindo para o desacerto do seu ritmo: a paleta de cores. O grandioso cenário (cujos detalhes poderiam ser mais bem cuidados) e os apropriados figurinos variam entre marrom, vermelho, rosa, roxo e púrpura, opção essa que empobrece o trabalho. Iluminação e trilha sonora estão adequadamente postas, contribuindo para que a assistência mantenha o foco na ação que se desenrola.

Diante de um público em que boa parte das crianças nunca foram ao teatro, “Piratas” cumpre o seu papel e oferece uma boa opção, providenciando, dentro do possível, espaço para o fluir da imaginação.

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Ficha técnica:


Elenco: Davi Borba, Dejayr Ferreira, Jadson Silva, Juliano Bitencourt, Paulo Adriane, Juliano Canal e Sandra Loureiro.

Texto: Jadson Silva
Direção: Airton de Oliveirfa
Preparação de Atores: Miriam Benigna
Trilha Sonora: Jadson Silva e Douglas Silva
Cenário: Marcos Buffon
Figurino: Naray Pereira
Iluminação: Nara Maia
Produção Executiva: Airton de Oliveira
Realização: Telúrica Produções, Grupo Loucos de Palco e Cia. Vento Minuano

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