23 de out de 2011

O Fantástico Circo-Teatro de um Homem Só


Foto: Alex Ramirez

Muitos aplausos ao Homem quando Só e quando Acompanhado

O Fantástico Circo-Teatro de um Homem Só”, mais recente produção da Cia. Rústica, é um espetáculo que apresenta dois temas aparentemente próximos, mas distintos: a possibilidade de uma só pessoa ser várias (“Eu sou nuvem passageira que com o vento se vai”) e a condição solitária de um homem, de um artista (“Um homem só”). Em pouco mais de uma hora, o monólogo é a consagração de Heinz Limaverde como ator. De forma simples e delicada, a peça proporciona ao público provas do seu talento que tem, ao seu dispor, várias oportunidades de mostrar diversas faces de si próprio, propiciando ao público momentos em que se gargalha e outros em que se emociona. Da comédia ao drama, não há dúvidas de que Porto Alegre está diante de um grande artista cênico: Limaverde interpreta bem, tem ótima dicção, canta afinadamente e conhece as diversas potencialidades dos movimentos do seu corpo sob os refletores, tudo isso posto em favor das cenas nessa montagem dirigida por Patrícia Fagundes.

Quando o público entra, o ator está sentado diante de um espelho de camarim (daqueles cheios de lâmpadas acesas) se maquiando já vestido com o figurino de abertura. Cuidosa e belamente construído, o cenário de Juliano Rossi e Paloma Hernández apresenta o picadeiro de um circo. Uma lona redonda no chão, luzes de ribalta, uma cortina de retalhos ao fundo, cubos de madeira em formato de trapézio. Heinz Limaverde dá início ao trato do primeiro tema se apresentando ou apresentando o personagem, estabelecendo, com isso, a proposta que, em forma de conceito, será explorada até o fim: o um também pode ser dois. Um picadeiro também pode ser um camarim, um ator também pode ser um personagem, um personagem pode ser dois, a história de um pode ser a história de outro, um palhaço pode ser alegre e triste ou feliz e mal-humorado, uma vedete pode ser jovem ou velha, o passado pode ser o presente ou o presente pode ser a concretização de um passado que nunca existiu. O resultado é um profícuo jogo de presenças e de ausências através do qual uma figura se nutre da outra, construindo a dúvida como alavanca para a transformação ou a possibilidade latente de ser melhor na vez seguinte.

O segundo tema não tem o mesmo privilégio que o primeiro em termos de sua dramaturgia, essa assinada por Limaverde e por Fagundes. Assim, pode-se dizer que a articulação dos temas é o único ponto negativo de “O Fantástico Circo-Teatro de um Homem Só”. Em momentos discretos e isolados no início e no fim e de forma bastante marcada na cena central da “Mulher Barbada”, a condição solitária do personagem artista propõe uma segunda reflexão na medida em que, nesses momentos, não se considera a possibilidade de ser outra coisa que não só. De forma negativa, sente-se o espetáculo “pesar”, sendo que esse peso não é resultante de uma inexistente quebra de ritmo, menos ainda de um suposto cansaço da plateia, mas é conseqüência de uma “mudança de enquadramento” na abordagem da história, essa bem contada nos seus dois e diferentes posicionamentos. Em outras palavras, a cena da “Mulher Barbada” funciona como uma peça dentro da peça ainda que encontre, como já foi dito, discretas pontes no início e no fim da apresentação.

“O Fantástico Circo-Teatro de um Homem Só” é também um dos grandes momentos na carreira de Daniel Lion, já por outros trabalhos considerado um dos melhores figurinistas do teatro gaúcho. Nada menos que impecáveis, os trajes utilizados por Heinz Limaverde, além de bonitos e ricamente elaborados, fazem a peça atingir grandes níveis de qualidade estética na medida em que caem naturalmente ao corpo do ator e à construção dos personagens, providenciando mobilidade, beleza e verdade. A trilha sonora escolhida e executada por Simone Rasslan e a iluminação de Lucca Simas em nada deixam a desejar, contribuindo positivamente para o espetáculo e, em contrapartida, para o teatro de Porto Alegre.

Embora haja quem diga que a história contada seja verdadeiramente a vida de Heinz Limaverde, essa análise partiu do princípio de que, havendo semelhança entre o(s) personagem(ns) e o ator, tudo não passa de mera coincidência. Vale a pena, pois, conhecer melhor tanto os personagens como o próprio ator, afim de que se tire, cada um por si, suas próprias conclusões.

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Ficha Técnica:

Dramaturgia: Heinz Limaverde e Patrícia Fagundes
Direção: Patrícia Fagundes
Elenco: Heinz Limaverde
Trilha Sonora e Preparação Vocal: Simone Rasslan
Cenografia: Juliano Rossi
Adereços, pintura de cenografia e programação visual: Paloma Hernandez
Figurino: Daniel Lion
Preparação Corporal: Cibele Sastre
Iluminação: Lucca Simas
Produção: Rochele Sa e Priscilla Colombi
Apoio de Produção: Patrícia Fagundes
Assessoria de Imprensa: Leo Sant’Anna

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