7 de fev de 2010

Monstras S.A.

Foto: Vanja Cá Michel

Peça


Ontem me dei conta de uma coisa que explica bastante a minha relação com o teatro. Ao esperar que mais uma peça começasse, eu desliguei o celular e refleti sobre o que tinha acabado de fazer. Eu nunca desligo meu aparelho celular. Nunca. Quando estou muito cansado e quero dormir sem ser acordado pelo toque, eu coloco ele no silencioso. No cinema, eu coloco ele no silencioso. Quando vou sair e não quero ser incomodado, não levo o aparelho. Ou, então, quando não quero, eu simplesmente não atendo deixando quem me liga desistir. É, no teatro, o único lugar onde eu desligo o meu aparelho de telefone. Por respeito aos atores e à produção, sim. Também num gesto de profunda delicadeza com os demais da platéia. Mas, sobretudo, por respeito a mim que quero vivenciar aquele momento como de fato ele é: único.

Gosto de lembrar que um espetáculo é uma peça. Peça é sinônimo de parte. Um espetáculo, assim, não é o teatro, mas apenas uma peça de teatro. Um filme não é o cinema. Nem mesmo vários filmes. O teatro é um universo com todas as peças, como um imenso quebra-cabeças em cuja caixa perdida se encontrava o número total de partes em que o todo fora dividido, mas que agora já não sabemos quantas são. Então, vamos montando uma aqui, outra ali, bastante longe de termos uma noção da imagem final. É fato que umas peças são mais ricas (em cores, por exemplo) que as outras. Outras são tão perfeitas que é fácil de encontrar no tabuleiro o seu lugar de encaixe. Há, no entanto, algumas terríveis: de tão estragadas já não conseguimos encontrar seu par e acabam ficando num limbo esperando talvez para mais adiante serem postas no todo em construção.

“Monstras S.A.” é uma peça interessante porque, se olharmos bem para ela, vamos identificar, na sua pequena parte de imagem, várias pequenas peças. Trata-se de um espetáculo de dublagens em que dois atores se revezam dublando cantoras famosas. É uma peça sem muita cor como aquelas que compõem o céu, ou o gramado, ou o branco da nuvem em oposição àquelas peças que são os olhos ou o nariz de alguém. Sem elas, no entanto, o cenário está incompleto. Num quebra-cabeça, todas as peças tem igual valor, desde que se encaixem uma nas outras. (ou vamos pensar que são peças de outros quebra-cabeças...)

Luis Carlos Castanha e Caio Prates, sob a direção de Vanja Ca Michel, escolheram algumas músicas. Talvez o elemento dramático que defina essas escolhas fosse a feiúra de suas cantoras. No entanto, não podemos dizer que Maria Callas (Sempre Libera, La Traviata) foi feia algum dia, tampouco Danielle Licari (Concerto para uma só voz) ou Sara Brightman (O fantasma da ópera). Além disso, Klaus Nomi (Ópera) e Antônio Bandeiras (O fantasma da ópera) são homens e não chegam a monstros. Estaria a monstruosidade, então, na excelência de suas vozes? O encontro com a dúvida não é um bom começo numa análise de espetáculo.

Castanha e Prates encontram, e isso é o mais importante, nesse espetáculo, um ótimo lugar para mostrar o seu melhor. Castanha domina o público como poucos, apenas algumas vezes exagerando nas piadas com conotativas sexuais, utilizando em excesso palavrões desnecessários pela grande quantidade. É notório a forma como ele é envolvente, cativante e engraçado. Têm-nos nas mãos e, no quebra-cabeça, nos lembra como é importante o diálogo público-espetáculo estabelecer-se. Prates é, sem dúvida, o melhor no gênero dublagem na capital gaúcha e é bom tê-lo de volta depois de inesquecíveis espetáculos de tempos atrás.

Um espetáculo composto unicamente pela sucessão de dublagens corre o risco de ser cansativo. A graça aparece rapidamente no surgimento do ator caracterizado, o que quase sempre provoca gargalhadas. O riso, no entanto, nem sempre dura toda a extensão da música. Não é o caso de “Monstras S.A.” Não em todos, mas na maioria dos números, a interpretação dada pela dupla de atores à música faz aparecer surpresas e mais surpresas, o que garante o divertimento do início ao fim. Fica a vontade de sair correndo a pesquisar as músicas cujos cantores não conhecemos e entender as piadas que não compreendemos. Fica, mais que tudo, a homenagem aos artistas.

O cenário, composto de fotografias e velas, além de teias de aranhas, traz imagens dos cantores escolhidos. É com eles que Prates e Castanha dividem as palmas no final, o que é um gesto louvável.

Em alguns momentos, me peguei contemplando o cenário e o figurino e refletindo sobre como é interessante perceber o todo da obra para compreendê-la. De longe, se percebe a falsidade dos fios que constroem as teias, isso sem nem tocar no caso da aranha de pelúcia. O fato é que é mesmo para ser assim. Nesse espetáculo, nesse todo, um micro universo do teatro, o cenário é apenas ilustração e não deve funcionar como algo além disso. E, de fato, não funciona. Sinta-se nisso a conclusão de que o que é notoriamente falso no cenário e no figurino cai “como uma luva” na proposta do espetáculo porque concorda com ela. A Susan Boyle de Caio Prates não é, de fato, a cantora britânica recém descoberta, assim como a Amy Winehouse de Castanha não é a cantora de soul mais escutada em 2008. É uma piada, uma paródia dela. A grande aranha vermelha é também em relação a uma aranha viva.

“Monstras S.A.” agrada pela despretensão, pela ingenuidade, mas também por haver, dentro de si, uma ligação que, de uma forma geral, transborda a peça e chega ao todo da imagem.

Antes de colocar a peça no tabuleiro, olhamos atentamente para ela concentrados no divertimento da montagem do quebra-cabeça. Posta no seu devido lugar, podemos olhar outras partes, nos conectar com outras imagens e, finalmente, religar o aparelho celular, nos disponibilizando para o mundo.
*

FICHA TÉCNICA

Texto: João Carlos Castanha
Direção e produção: Vanja Ca Michel

Elenco: Caio Prates e João Carlos Castanha

Iluminação e Operação de som: Moa Junior
Maquiagem: João Carlos Castanha e Caio Prates
Figurinos: João Carlos Castanha
Costureira: Zila Oficina de Costura
Cenário: João Carlos Castanha e Vanja Ca Michel
Fotos e Arte Gráfica: Moa Junior
Realização: Cia Déjà-vu

1 Comentário:

disse...

Tenho achado tão bom o fato de você abrir os seus textos com as impressões de si mesmo - falando daquelas sensações que fazem que com o leitor te reconheça. A crítica é muito dirigida e acabamos vendo apenas o espetáculo. É bom, mas pode limitar o interesse somente para quem o viu.
Sabe por que você desliga o celular no teatro? Porque nos curvamos diante daquilo que amamos de verdade. Abraços.

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