13 de fev de 2010

Goela Abaixo ou Por que tu não bebes?

Foto: Elisa Viali

Olhar e não olhar

A primeira coisa que precisa ser dita sobre a apresentação de “Goela abaixo ou por que tu não bebes?”, da Cia de Teatro ao Quadrado, é obrigado. Obrigado por manifestar em um gesto simples o carinho pela arte, o respeito pela classe, e o prazer da vinda do público. Após cinco anos desde sua estréia, o espetáculo mantém sua produção impecável: cenário bem arrumado, figurinos em ordem, iluminação bem posta, interpretação digna de parabéns. Lembrei agora de Dante, o diretor de Som & Fúria, fazendo de tudo para manter o espetáculo bom até o último dia, quando apresentam Hamlet para alunos de escolas de classes populares. Para mim, que tenho assistido com muito prazer aos espetáculos dessa Cia, cito o caso de “Goela abaixo” como um ótimo exemplo de como o teatro gaúcho, de um modo geral, não é fato a ser desvalorizado.

Uma crítica formal e dura não teria começado dessa forma. Falaríamos da peça, do caso em específico da apresentação no Porto Verão Alegre, partindo para Vaclav Havel, o dramaturgo tcheco que escreveu o texto na metade dos anos 70 e que há pouquíssimo tempo deixou de ser presidente da República Tcheca. Imagino que em tempos a. G. (antes Google) esse tipo de informação era essencial. Hoje, para mim, prefiro ir mais adiante. O principal ponto a destacar nesse espetáculo que, ao meu ver, vale cada minuto empregado na sua assistência, é a cumplicidade de olhares trocados entre Margarida Leoni Peixoto (o mestre cervejeiro) e Marcelo Adams ( o funcionário). A história é inteiramente contada na relação desses olhares: O mestre nem sempre olha para o funcionário. O funcionário nem sempre olha para o mestre. O ritmo marcado pelo olhar/não-olhar é quem fala aquilo que deve ser ouvido.

Ao escrever “A audiência”, Ravel criou uma história curta. Ao produzir o texto, as adaptações realizadas empurraram o texto para o formato sessenta minutos. Talvez pelos nomes ditos em cena, ou pela música que abre o espetáculo, ou ainda pelas cores dos figurinos, me lembrei do alargamento do tempo narrativo em “Encouraçado Potenkim”, fruto das pesquisas em montagem de Eisenstein e Kuleshov, grandes fãs e alunos do encenador Meyerhold. A cena vista de vários pontos de vista diferentes, a repetição de diálogos, o transporte do cenário permite que o olhar do espectador reveja o recém-visto, ouça novamente o que foi há pouco dito e reflita sobretudo na distância (mínima, mas significativa) entre os dois pontos. Se o texto já tinha influência do teatro do absurdo de Ionesco, a encenação pode ter ganho novas cores com a montagem soviética.Cores essas que só são vistas se não nos dedicarmos muito à compreensão do texto (que será repetido e repetido) ou a distribuição das cervejas, dos papéis, das lâmpadas, mas nos preocuparmos com o olhar de Peixoto e de Adams.

Quando o corpo não se mexe e a voz não chama a atenção, o público se volta para que há de mais importante num ator que pretende levar à cena um texto como esse. O que é possível de ser encontrado? Uma cumplicidade ímpar: Margarida conhece os tempos de Marcelo e é por ele conhecida. O estudo e a técnica bem empregada, mais que o hábito, faz com que o corpo inteiro do personagem enxergue seu antagonista, perscrute seus movimentos,escanerize suas inteções. Daí a balança andar de um lado para o outro numa rítmica harmônica e coerente consigo mesma.

Não coerente, no entanto, com a fruição. O “toma lá, dá cá” da contracenação acaba cansando o espectador que se apóia na cadeira nas últimas cenas movido pelo cansaço. O ritmo, que sofreu um aumento na velocidade, ganha agora freios e mais freios. Cai. E essa, talvez, seja a caída da ressaca.

Ao oferecer cerveja aos espectadores, a Cia de Teatro Teatro ao Quadrado divide a ressaca com o público, assim como dividiu o prazer da bebedeira. O fim lento é, por isso, coerente e bom. Bom de assistir, bom de ter assistido, bom de ir embora, bom te ter vindo, bom de olhar o olhar. E de o fechar também.
Que mais cinco anos venha a esse espetáculo e muitos mais ao grupo. Mais ainda ao teatro porto-alegrense que encontra aqui um dos seus melhores.

*

Ficha Técnica:

Autor: Vaclav Havel
Elenco: Marcelo Adams e Margarida Leoni Peixoto
Direção: Marcelo Adams
Cenografia e trilha sonora pesquisada: Marcelo Adams
Figurinos: RÔ Cortinhas
Iluminação: Fernando Ochôa
Produção e realização: Cia. de Teatro ao Quadrado

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