3 de mai de 2009

A decisão



Foto: Débora Birck


A liberdade de Ana Campo

A liberdade é nada mais que a liberdade de fazer o que você sabe que tem que ser feito.

O Grupo Trilho é corajoso em dizer através do teatro. É corajoso em re-dizer Brecht, em enfrentar as oito décadas que nos separam desse texto, em aproximar o público de Porto Alegre de um lugar onde a revolução comunista é uma realidade que passa pelas portas e enche os travesseiros. O que temos a ver com isso?

Lula é o nosso presidente e é fundador do partido dos trabalhadores. A América do Sul é quase toda governada por partidos que outrora se disseram de esquerda. Barack Obama, presidente dos States, gosta de Lula e da América Latina. O presidente do Irã, que não gosta de judeus, nem de homossexuais e enforcou uma pintora em praça pública na manhã de ontem sem provas está no Brasil. Americanos já podem viajar para Cuba. Hugo Chavez será o novo presidente ditador “queridão” da Venezuela. E ouve-se dizer que Bin Laden já morreu.

Esse ano não trocaram o terno de Lenin...

E um grupo de teatro me vem falar de comunismo, de camaradas, de panfletos e de perseguição política... Se o fosse o “Bailei na Curva”, nos fazendo chorar com Roberto Carlos, pantalonas e cubas libre pelos desaparecidos na ditadura direitíssima do Brasil até vá lá... Mas Brecht !?

Ts ts ts...

Grupo Trilho de Teatro Popular: embora um trilho só tenha dois lados, pois um trem só pode ir ou só pode vir, mas nunca andar na transversal, o grupo do Bairro Humaitá, abre um espaço na platéia que tem quatro lados e nenhuma parede. Como com aqueles que geralmente vêem o trem passar, os atores sem diretor assinante, passam por todos os lados do trilho aberto, incluindo embaixo e em cima, dentro e fora. Dentro e fora de todos os signos que eles mesmos, puxando do texto, os fazem nascer na Cidade Baixa, no teatro da Rua da República, depois do Pingüim, depois do Jóia, quase em frente ao Namastê, antes do Pão dos Pobres. Ao lado de uma escola.

“Aquele que diz sim, aquele que diz não: a decisão” é uma peça tipologicamente enquadrada como didática. O grupo formado por oito atores e (in)(ex)formante de vários signos concentrados é mais uma grata surpresa desse projeto “Novas Caras” que, pela segunda vez esse ano, é muito bem-vindo. Não há um figurino fora de centro, um adereço que não seja interessante, um foco de luz que não cumpra seu papel. A trilha está composta para dar leveza na hora certa e enfatizar a atenção naquilo a que devemos prestá-la.

Mas, uma atriz erra o texto. Ana Campo errou o texto mais que um par de vezes.

Não. Eu não lia o texto durante a encenação. Não. Eu não sou daqueles que acham que o texto é um deus intocável. Não. Eu só não gosto quando erram o texto. E Ana Campo errou ele...

Ts ts ts

Atingem o alvo todos os esforços do grupo. Menos aqueles que dizem respeito à corporificação da palavra, o transformar em teatro o que é literatura. Para isso, Brecht aproxima o público do seu texto: porque não quer o texto. Por isso também que essa é uma fábula didática porque quem aprende não é o público, mas todos.

A peça didática ensina quando se atua e não quando se é espectador (KOUDELA, 1991: 13)”, sob essa afirmação Steinweg parte do princípio de que a peça didática é constituída de uma “regra básica” e de uma “regra de realização”. A primeira se norteia pela idéia de uma atuação sem espectadores, onde os próprios encenadores seriam atuantes e observadores de uma seqüência de ações realizando assim uma análise crítica das atitudes e comportamento. A segunda regra se norteia por padrões estéticos que são válidos para a construção de personagens nas peças épicas de espetáculo.*

Assim, é uma pena que só em algumas cenas cada ator se destaca como dominadores da palavra que pronunciam: Daniel Gustavo na cena do charuto, Fábio Castilho quando se revolta, Giovana Zottis na cena do diretor e Drica Lopes (ótima exceção) em quase todas as suas cenas. De resto, é monótono ver sete pessoas dizendo palavras que não combinam com um corpo enquanto uma pessoa brilha.

E quando palavras combinam com o corpo, fica-se nítido que tudo o que é dito é um erro que poderá virar um acerto depois que sair da boca. Acertar ainda na língua é coisa de quem lê ou de quem faz tragédia grega ou texto clássico.

Ana Campo é minha ídola! Salve, Ana Campo! Livre do dramaturgo alemão dos anos trinta, mas com ele mais que todos!

Viva a Revolução!


Ficha Técnica:

Direção: Grupo Trilho
Texto: Bertolt Brecht


Elenco: Ana Campo, Caroline Falero, Daniel Gustavo, Drica Lopes, Fábio Castilhos, Gildo Carvalho dos Santos, Giovanna Zottis e José Carlos Junior.


Cenografia e Figurino: Grupo Trilho
Iluminação: Bruna Immich
Trilha Sonora: José Carlos Junior


Produção: Fábio Castilhos e Marcela Marco

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