17 de mai de 2009

Agora Eu Era, corte 1


Foto: Daniela Agostini

Vi

Conheci meu último namorado no Porão do Beco e com ele convivi durante um ano. Tomei o maior porre foreva and eva da minha vida lá quando terminamos. Prometi nunca mais pisar naquele preto e branco. O lugar me traz memórias enough.

E eu sou público de mim mesmo, do espetáculo contado a mim pelos degraus e paredes, luzes e grades.

João Pedro Madureira usou tudo isso, isso que eu nem ousei re-narrar aqui, sem o meu consentimento, para construir: “Agora Eu Era, corte 1”.

Vi seus atores na pista dançando com os peitos nus e lembrei das muitas festas, dos muitos povos, das multidões allstarianas a bailar em volta de si mesmas como redemoinhos. Tufões só existem por um motivo: concentrar. O vento se mobiliza para organizar aquilo que é centro e aquilo que não é. O que é centro? Ao dançar como redemoinho, você se encontra. E eu vi eu mesmo me organizando tantas e tantas vezes ao som do Schutz.

Vi os sonhos e as idealizações se unirem. De um lado o impossível ou invisível, de outro o palpável: os quatro atores se tornaram uma família, pai, mãe, casal de filhos. No palco, uma dança de cadeiras sem a regra do retirar a cadeira e o cair pela ausência dela. Os quatro atores: Lucas Sampaio, Rafael Régoli, Sofia Ferreira e Vinícius Meneguzzi, na situação de cada personagem-familiar. Stop. Lucas é o pai, Rafael a mãe, Sofia a filha e Vinícius o filho. TV ligada, o filho entra nela e qualquer semelhança com “A rosa púrpura do Cairo” não é mera coincidência. Do estereótipo, fomos ao que pode vir a ser. E a história sai do palco e volta pra pista. Me vi casado como já fui, mais por amor aos meus sonhos do que por amor ao cônjuge com todas as bolachas Maria que a palavra cônjuge traz. Também vi meus pais, juntos há 32 anos, fiéis até que a morte os separe, mesmo sem véu, grinalda e aliança.

O filho traz lápis coloridos a sua irmã e diz: “tatuagem dói”. “Maria Luiza Sá e Madureira” (um nome assim só pode ser uma citação!), autora do texto, poderia ter acrescentado que tatuagem dói porque fica pra sempre. Para sempre é muito tempo, mas é bonito e forte de se dizer. Então, dizemos pela autora, pelos atores, por nós mesmos, sem nos responsabilizarmos de todo. O filho quer ser a filha. O filho é gay, numa frase cujo sujeito sabe-se como sujeito, mas desconhece a regra de que um sujeito só é um sujeito porque há também um predicado a ele referido. Então, “o filho”. E o “é” é coisa nossa que o pomos como tal. Coisa minha. Assumo. Também eu sou, ora essa.

“Agora Eu Era, corte 1” me conta sobre viver os sonhos dos outros. O filho volta ao palco e canta uma música que não é dele. O rádio colorido falha e ele bate nele. Para mim, o rádio lembra não ser aquilo que se pensa ser. O rádio não diz o que é, mas diz algo que muita gente pensa ser. Ele, o aparelho, merece mesmo apanhar. Lembro do meu pai batendo na televisão para ela funcionar como ele queria. Para funcionar como havia sido prescrito para que ela funcionasse. Não, nunca apanhei do meu pai. Não se preocupem!

O filho volta à pista dando continuidade ao vai e vem, tornando palco e pista uma coisa só. E a cena mais linda acontece: com um giz, o filho desenha o caminho que deve ser seguido pela irmã no chão. Desenha pegadas em devir.

Pegadas são índices de que alguém pisou ali. As pegadas que o filho desenha para a filha, são ordens a que ela deve seguir e segue. São pegadas em potência, passos em potência. E a gente em suspensão enquanto a bailarina apóia-se num pé só caminhando pelo que lhe é determinado. E eu chorei porque planejo a minha vida, porque desenho minhas pegadas, embora nem sempre pise nelas.

A mãe fuma porque o filho usa batom. O pai joga tennis porque jogar tennis é o predicado de seu sujeito nascido assim sem refletir sobre o que é. E o casal discute a originalidade da raça japonesa e a importância de dizer para ajudar. Uma fala não combina com a outra, mas a conversa se estabelece para a gente. Teatro é para o público. E os atores são sempre público de suas contra-cenas. E nem sempre eu faço aquilo que eu digo, mas tudo o que acontece na minha vida já foi dito por mim.

A história termina num vôo final dos quatro personagens, e eu vi o amanhecer na porta do Beco antes do tempo em que via o diário amanhecer da janela corajosa da minha sacada, nunca mais fechada desde que decidi namorar comigo mesmo por um tempo.

Assim, eu vi “Agora Eu Era, corte 1” e, numa leitura (bem) parcial de Lehmann, vi que o termo “Teatro Pós-dramático”, também outra bolacha Maria, expressa mesmo esse gênero de teatro em que o cenário (Porão do Beco – pista e palco) não conversa com a luz (focos transversais nem sempre fixos, mas sempre uniformes) que também não dá papo para o figurino (calças, peitos nus, branco sujo e preto sem ser limpo) que também não quer saber de beijinho com o diálogo que, aliás, não se entende nem consigo mesmo. Mas que há, em cada elemento (tempo, ação, espaço) conversas paralelas, produtoras de sentido que se engendram em história(s) dizendo que teatro pós-dramático não é o mesmo que teatro não-dramático. No novo espaço teatral da capital gaúcha, esse produção da Ambrosia Cultural e do Beco 203, “Agora Eu Era, corte 1”, excelente experiência de estréia do Grupo “Vai!”, apresenta, não uma, mas várias histórias, sem dúvida, por tudo isso, muito bem contadas!

Eu vi a minha.

Narrem nos seus blogs as suas.

(Ou nesse aqui.)


*

Direção: João Pedro Madureira
Assistência de direção: Vinícius Meneguzzi
Textos: Maria Luiza Sá e Madureira e Grupo
Elenco: Lucas Sampaio, Rafael Régoli, Sofia Ferreira e Vinícius Meneguzzi
Iluminação: Mariana Terra
Vídeos: Romy Pocztaruk
Pesquisa de trilha sonora: João Pedro Madureira
Direção de Produção: Laura Leão

3 Comentários:

maria luíza sá e madureira disse...

obrigada pela crítica! incrível alguém captar as intenções do projeto como tu fez (até citando o lehman!). corrige ali que o texto é meu e do grupo?

quanto ao meu nome: é tão estranho assim?

Fil disse...

o nome do grupo é "vai!" e não "agora vai".
achei a tua percepção a respeito da peça bastante aguçada! parabéns!

Lucas Sampaio disse...

Rodrigo,
demorei para comentar porque resolvi voltar aqui para ler a crítica algum tempo depois.
como disse a maria, tu captou as "intenções" do projeto, ao descrever a família cênica e a tua, o sujeito e o predicado em "o filho é gay". não é nada além disto que buscamos. apenas o convite ao convívio daquilo que somos naquele momento, sob aqueles olhares, dentre nós 4.

um abraço

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