17 de set de 2010

My house - nunca um lar foi tão agitado

Foto: divulgação

Falta mais

Se você esquece de todo o resto e olha apenas para o espetáculo My house em si e sua estrutura, você encontra aspectos bem interessantes. Uma corporalidade que age em paralelo às estruturas de uma casa, de uma urbanidade, de um filete de arte popular que, burramente, tentamos fazer de conta que não existe quando olhamos para nós mesmos e nos identificamos mais com a visão idealizada que temos sobre nós do que com o que temos. A massa que pega ônibus, que usa roupas compradas à preços populares,que se diverte com pastéis e hotdogs, com vai aos grandes shows promovidos pela prefeitura: esse é o tema estético de Marco Rodrigues ao construir um espetáculo de street dance. Vemos bailarinos muito jovens estampando no rosto o prazer retórico de estar em cena, de mostrar-se, de dizer sobre si. O palco é limpo e o cenário é potente, isto é, sua presença produz a possibilidade de muitas imagens a serem construídas. De todo o grupo, Jean Guerra consegue a façanha de se destacar num todo quase homogêneo. Seus movimentos são precisos, hábeis, fortes. O grupo é afinado e, novamente, em si, o espetáculo é vibrante.

Mas um espetáculo não é só um espetáculo, especialmente, quando está envolvido na produção de um festival do porte do 17º Porto Alegre em Cena, ou quando está entre as produções de dança mais importantes da capital gaúcha. Nesse caso, o que era muito interessante passa a ser apenas bom e não muito além disso.

Em 1957, Jerome Robbins dirigiu e coreografou, na Broadway, um musical com texto de Arthur Laurents, música de Leonard Bernstein e letras do então novato Stephen Sondheim, chamado West Side Story, que, no Brasil, veio a ter o estranho nome de Amor, sublime amor. Numa versão de Romeu e Julieta de Shakespeare, dois grupos de rua duelam em Nova Iorque: os Jets, grupo de garotos brancos descendentes de europeus, em especial, os irlandeses que povoaram a ilha; e os Sharks, grupo de porto-riquenhos, imigrantes latinos, não menos numerosos. Um garoto branco e de olhos verdes, Tony, se apaixona por uma garota imigrante de pele amorenada, Maria. Em todo o musical, que virou filme em 1961, dirigido por Bob Wise (The sound of music), está permeada a briga de rua, a dança na rua, o street dance. Lá, a raiva, as diferenças sócio-culturais, a belicosidade estão muito presentes. No entanto, em West Side Story, vemos grandes momentos de dança que, nem em proposta, aparecem no espetáculo de Marco Rodrigues, sessenta anos depois.

My house distribui, ao longo do seu desenrolar, a repetição constante de um grupo de não mais que dez movimentos: solos, duos, figurinos diferentes, luz nova, mas sempre o mesmo movimento, cada vez mais cansativo se fecharmos os olhos para o carisma do grupo, sobre o que já tratei. Falta, em Rodrigues, o fôlego, a pesquisa e a criatividade para figurar em entre os grandes nomes da dança gaúcha. A plateia parente e desavisada não pode ser o parâmetro para um coreógrafo que tem atrás de si quase décadas de pesquisa em dança de rua e fiz questão de citar um momento de um teatro disponível em qualquer locadora, acessível em todos os lugares, ao invés de trazer presente artigos, livros, vídeos e relatos mais raros que um bom pesquisador deve percorrer.

Nesse sentido, o grupo de Marco Rodrigues é bem vindo e recebe os parabéns pedagógicos por estar começando com grandes promessas. Sai com o aviso de que Porto Alegre espera mais. E quer ter.

*
Ficha técnica:
Direção: Marco Rodrigues
Diretor técnico: André Birk

Elenco: Adriano Oliveira, Bianca Holsback, Jean Guerra, Leonardo Rosa, Letícia Holsback, Marcelle Schwonke, Marco Rodrigues, Natália Porto, Paula Azevedo, Tainã Correa e Thiago Fernandes

Figurino: Marco Rodrigues
Iluminação: Karra
Trilha sonora: Marco Rodrigues
Produção: Marco Rodrigues e Cristiane Ruiz
Duração: 55min
Classificação: livre

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