2 de jul de 2010

Peru, NY

 Foto: Regina Protskof

Pesquisa e Planejamento: certeza de bom trabalho


Peru, NY – A Morte de Steven Adinoff Por Quem Não o Conhecia” dura mais ou menos cinqüenta minutos. Os lugares cênicos são múltiplos e, em cada um deles, há um espaço cênico pouco delimitado. O espectador passeia pelo “teatro” buscando as cenas onde elas acontecem, disputando com outros espectadores um ponto de visão privilegiado.

O espetáculo, que tem uma dramaturgia assinada pelo grupo e por Diones Camargo, se apresenta através de uma narração nada linear, bastante fragmentada e com personagens muito pouco definidos. Vemos dois meninos, uma menina, duas adultas. A relação entre eles não está clara, a sua função na história não é fixa, seus diálogos não têm marcas de envolvimento com o todo. Um menino morre pelas mãos de outro numa caixa de areia. Há uma mãe. O resto todo só pode ser descrito subjetivamente. Além de diálogos, há curtos solilóquios, narrações em off, monólogos.

A direção de Ian Ramil e Tatiana Vinhais explora os lugares cênicos de forma bastante austera. Há uma caixa de areia num lugar. Uma mesa de vidro noutro. Uma banqueta num terceiro. Os figurinos (brancos e xadrez) conversam com a brancura das paredes. A iluminação usa, além de refletores, imagens projetadas: rabiscos sobre o menino assassino. Há também o vídeo de uma escritura em caderno de caligrafia. Os atores são quem, de fato, constróem o espetáculo, enchem a cena, dominam o olhar do público, sem fazer tirar a importância dos demais elementos que também concorrem de igual para igual.

Levantados, até aqui, a opção do lugar cênico, da dramaturgia não linear e da direção com alguns elementos citados, percebemos que a produção, como um todo, pode ser lida como um objeto de arte pós-dramático (Hans-Thies Lehmann) ou pós-moderno (Jean Baudrillard e Frederic Jameson). Há sempre muitas formas de ler uma obra e optar por uma é escolher um referencial em detrimento de outro. No caso de “Peru, NY”, chamo a atenção para o fato de que não é a escolha do espaço, a opção por um dramaturgia específica, nem uma direção como a que pode ser vista (enquanto a peça estiver em cartaz, claro!) que tornam o espetáculo meritório. “Peru, NY” é um dos espetáculos mais interessantes do ano (e só em 2010 eu já vi mais de 50!) até agora porque faz um uso inteligente (leia-se adequado) das opções que faz.

Numa opção narrativa que se estrutura pela fragmentação, pela mediatização (exploração de grande número de meios significativos e não meramente o uso de imagens cine/televisionadas), pelo jogo pouco organizado de significantes adversos, os personagens não surgem a partir de sua oposição internarrativa, mas por seu autocontraste. O mocinho não é mocinho porque é oposto ao vilão. Mas o personagem é, em si mesmo, mocinho e vilão ao mesmo tempo e nele, como em todos os elementos, está o conflito. Assim, a relação entre os diferentes (e numerosos) significantes escolhidos pela direção não age sobre as construções de forma fundante, mas de forma meramente colaborativa. Em “Peru, NY”, por exemplo, o figurino ( o branco em oposição ao xadrez e não o figurino de um ator em oposição ao figurino de outro ator) une os personagens, mas está sozinho nessa função, uma vez que, como já foi dito, não sabemos muito bem quem são as figuras dessa história. Lugares múltiplos, assim, não são uma opção válida porque torna a produção “moderna” ou “avançada” (ou “super cool”) no cenário teatral porto-alegrense, mas porque esse jeito de contar a história se aproxima mais da história do que um palco italiano. Como as grandes obras, a forma age em prol do conteúdo.

O assassinato de Steven Adinoff poderia ser contado de forma linear, dramática, tradicional (e com possibilidade de grandes méritos!). O grupo e Diones Camargo escolheram diminuir a intensidade da relação causa e efeito, a força da ação dramática (imanente nessa história como em todas), o conflito intradiegético para levar o leitor a se colocar no lugar dos personagens e a refletir sobre certo/errado, presença/ausência, querer/inércia, solidão, só para citar alguns temas colhidos subjetivamente. A ação, assim, age em retrocesso: ao invés de partir do mote, vai até ele. Daí que explorar a movimentação do espectador fazendo com que, para acompanhar as cenas, seja preciso movimentar-se, buscar um ponto de visão melhor, relacionar-se, pedir licença, interagir na platéia opera em favor da opção dramatúrgica que almeja aproximar os personagens do público.

Muitas são as pessoas que assistiram ao espetáculo comigo e todas elas trazem consigo uma carga vivencial diferente da minha. Assim, a paleta de cores e de sons de que faz uso a iluminação e a trilha sonora privilegia não a regularidade das vivências espectatoriais, mas promove, com significantes difusos, a subjetividade. Em outros textos a respeito de espetáculos desse tipo, eu me esforcei em deixar claro a minha visão, as minhas memórias, tudo aquilo que o espetáculo havia me feito fazer sentir e pensar. Hoje, prefiro deixar claro que tenho certeza de que o rabisco projetado na cabeça de um personagem não teve para mim o mesmo significado que teve para outras pessoas, como também não as diversas imagens construídas em cena.

Dois são, no entanto, os aspectos que agem em contrário à concepção lida, sem que isso seja um desvalor: 1) Vozes altas são contrárias as aproximações do público. Se um ator grita, o espectador tende a preferir ir para longe. A excelente interpretação de Sofia Ferreira teria um lugar mais coerente na narrativa se esse detalhe fosse melhor pensado. O mesmo para Francine Kliemann que, por não explorar menos as contradições internas possíveis em seus personagem, como faz as demais figuras, não tem o mesmo sucesso que Ferreira; 2) A construção de Steven Adinoff (Thiago Tavares) é monocor como a vitima que dele se esperaria ser numa construção dramática.

Por fim, “Peru, NY” é uma produção bem-vinda porque exibe, e que deve se orgulhar disso, um processo/produto resultado/resultante/promotor de reflexões, estudo e milimétrico planejamento.


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Ficha Técnica:

Direção: Ian Ramil e Tatiana Vinhais

Elenco: Francine Kliemann, Letícia Pinheiro, Sofia Ferreira, Thiago Prade e Thiago Tavares

Dramaturgia: Diones Camargo e Grupo
Orientação Acadêmica: Profª Dra. Sílvia Balestreri Nunes
Figurinos: Ana Hoffmann, Carmela Moraes e Letícia Pinheiro
Cenografia: Ian Ramil e Tatiana Vinhais
Arte Gráfica: Eduardo Montelli e Juliano Ventura
Criação de luz: Mariana Terra e Ian Ramil
Operação de Luz: Ian Ramil
Projeções: Mariana Terra
Vídeo: Eduardo Montelli e Isabel RamilTrilha Sonora Pesquisada: Ian Ramil e Tatiana Vinhais
Direção de Produção: Francine Kliemann
Produção Executiva: Pablo Damian
Divulgação: Galeria La Photo e Grupo

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