6 de jul de 2010

O menino que aprendeu cedo demais

Foto: Claudio Benevenga

Cheiro de Saudade

De um jeito muito belo, alguém me disse que “O menino que aprendeu cedo demais” é um espetáculo que “cheira a saudade”. De onde vem, pois, esse cheiro?

Dr. João (Pablo Capalonga) entra usando terno e gravata num sótão cheio de águas-furtadas. Há um guarda-roupas bem grande no centro e muitas coisas espalhadas: baú, chapeleiro, roupas, brinquedos, outros objetos. Numa abertura já bastantes vezes repetidas (“O fantasma da Ópera” é o exemplo mais conhecido do grande público.), o espetáculo, cujo texto é do próprio ator, inicia uma trajetória que o espectador já conhece: Dr. João vai se lembrar da infância. E acertamos. O texto inicia descrevendo o que já está sendo visto. Em off, ouvimos vozes de crianças pedindo que o menino João conte mais uma história. E é o que ele faz.

Toninho, o personagem da história dentro da história, é um menino que aprendeu bastante cedo a ler e a escrever. Seu lugar preferido é a biblioteca municipal e é lá onde ele descobre sobre, inclusive, que as nuvens não são todas iguais, mas suas diferenças podem indicar a previsão do tempo. Num diálogo com o pai, em que Capalonga interpreta os dois personagens como também todos os outros, Toninho é mandado passar uns tempos com sua avó. Então, o espetáculo oferece ao espectador uma música cantada pelo menino.

Até então, a nova produção da Telúrica poderia ser analisada como uma mofada tentativa de construir um espetáculo infantil com uma criança que, talvez, numa existiu. Ao cantar a primeira canção, embora tardiamente, a direção situa definitivamente a história dentro do gênero musical. E o sentido de tudo o que fora dito ganha novas arregimentações.

“O menino que aprendeu cedo demais” é um espetáculo romântico. Por isso, a redundância no diálogo (o texto que diz o que estamos vendo) ganha ares de descrição construidora (Quem não se lembra das muitas páginas em que Alencar descreve o Paquequer ou os muitos minutos em que Bob Wise filma os Alpes Austríacos?). Por isso, a idealização dos personagens (bons de lado, ruins de outro) se manifesta de todas as formas possíveis (advogados usam terno, velhinhas usam xale, viajantes usam uma trouxa, meninos usam bermuda) e repetidamente sempre que aparecem. Por isso, as novas informações são justificadas exaustivamente ao ponto de não parecerem novas (Sabemos como Toninho aprendeu o que sabe: ele freqüentava a biblioteca. Sabemos porque Toninho e o pai não se dão bem: a mãe de Toninho de faleceu. Etc.). O ritmo é lento e a interpretação, por vezes, parece enrijecida: a narrativa é cuidadosa em todos os seus detalhes, incluindo esses.

A conclusão de que uma produção é boa ou ruim surge após a sua análise e nunca deve vir antes. “O menino que aprendeu cedo demais” não é uma história de monstros, de aventuras, ou com temas atuais. Embora possa propiciar uma discussão sobre importância da leitura ou sobre o relacionamento entre pais e filhos, a narrativa se organiza voltada para si no sublime ideal de existir e, assim, entreter. Daí que não interessa pensar que a extrema pureza de Toninho é um ideal bastante longe do real. Mas, em termos artísticos, vale relacionar essa possível inexistência com o fato de que ninguém anda por aí com um microfone à boca a cantar canções de que se lembra afinada e lindamente. Um sótão com águas-furtadas, como é o cenário, eu nunca vi. E advogados suam bermudas, crianças usam calça e velhinhas jogam volleyball. Assim, a proposta dirigida por Airton de Oliveira, é coerente e atinge plenamente o que propôs atingir.

Sente-se a falta de mais músicas, assim como se cobra o não uso de muitos objetos expostos em cena. Elogia-se a cena do julgamento, em que a narrativa tradicional atinge o seu ápice, e, como um todo, a proposta estabelecida na contracorrente das produções infantis, bem interpretada, bem dirigida, bem produzida. A cheirar saudade.

*


Ficha Técnica:
Texto: Pablo Capalongae Míriam Benigna
Interpretação: Pablo Capalonga
Direção Geral: Airton de Oliveira
Preparação de Ator: Miriam Benigna
Trilha Sonora Original: Arthur Barbosa
Figurino: Claudio Benevenga
Iluminação: Nara Maia
Cenário: Claudio Benevenga e Marcos Buffon
Vozes em Off: Dejayr Ferreira e Luciana Marcon
Produção Executiva: Airton de Oliveira e Maura Sobrosa
Realização: Telúrica Produções

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