6 de mai de 2011

Ifigênia em Áulis + Agamenon

Foto: Lutti Pereira
Quando a incoerência vale ouro


“Ifigênia em Áulis + Agamenon” é o novo espetáculo dirigido por Luciano Alabarse, o mais bem sucedido diretor gaúcho, também coordenador do Porto Alegre em Cena, o maior festival de artes cênicas do planeta. 22 atores, um único ato, duas horas de duração e uma ficha técnica composta por grandes nomes. Mas, infelizmente, quem for assistir a “Ifigênia em Áulis + Agamenon” corre o risco de não encontrar o Luciano Alabarse do excelente “Medeia”(2007), do grande “Bodas de Sangue” (2010), do ótimo “Antígona” (2004) e dos tocantes “Heldenplatz” (2005) e “O animal agonizante” (2010). No lugar dele, estará o Luciano do terrível “Platão” (2009) e do péssimo “Édipo” (2008).

Do ponto de vista da análise teórico-crítica, o mais interessante da produção é perceber que, embora não agrade, o espetáculo é coerente e coeso. Todos os signos utilizados por Luciano são engendrados numa concepção bastante amarrada do texto. Desvendar essa concepção para refletir é a tarefa da crítica. De um modo geral, o espetáculo faz sentido dentro de uma leitura sentimental (e um tanto emocionada) das tragédias de Eurípedes (485 a 406 a.C.) e da de Ésquilo (525-425 a.C.). “Ifigênia em Áulis + Agamenon” é uma junção de três tragédias gregas: “Ifigênia em Áulis” (405 a. C.) inteira está ao lado de uma cena de “As troianas” (415 a.C.) e parte de ‘Agamenon” (de Ésquilo, escrita em (458 a. C.).

Onde estão os sinais que indicam essa leitura?

Os figurinos são uma composição de tecidos transparentes e crus: há muito pano em cada roupa. O proscênio é sombrio. O cenário é áspero: bancos (ou berços) de metal, uma escadaria bruta, uma grade de ferro também bruta. A trilha sonora é composta de músicas do disco “The Final Cut” (Pink Floyd), além de composições de Eleni Karaindrou e de Jean Jacques Lemêtre, acentuando alguns momentos de forma direcional e segura. As maquiagens são pesadas, carregadas, expressionistas. Dentro do universo dos signos plásticos, a sensibilidade está acentuada seja de forma direta (os véus e Pink Floyd, por exemplo), seja de forma reativa (a escuridão e a frieza apontam para o seu contrário, o suave, o sutil, o leve).

Destoando do costume, Alabarse oferece um palco em desequilíbrio: há várias cenas no lado esquerdo, quase a totalidade dos discursos aliás. As vozes dos atores, salvo exceções que serão comentadas a seguir, estão num volume que beira ao grito (e o esforço visível é bastante prejudicial tanto para quem se esforça, quanto para quem vê e ouve). Há um excesso de choros, batidas de pé e outros gestos (pobres) que expressam (ou dão forma a uma expressão, talvez, falsa) de dor e irritação, tudo isso bastante distante da sutileza que tornou Luciano Alabarse o responsável por tão grandes e belos espetáculos. Fernanda Petit (Ifigênia) está melhor quando não chora, quando controla a dor de sua personagem e transforma o resultado desse controle em perceptíveis nuances tonais no dizer do discurso trágico, tão belo. Vika Schabbach (Clitmnestra) está sem nuances, sem pausas, sem corpo. Mauro Soares está muito expressivo como Velho e como Poseidon e com uma dicção péssima ao interpretar Egisto. Rosângela Batistella, Fabrízio Gorziza e Thales de Oliveira sustentam construções sem verdade, apoiando-se nos objetos de cena (o berço e uma lança) ou mantendo-se visivelmente numa postura nervosa e pouco (ou nada) visceral. O coro começa bem, mas destoa nas últimas cenas, quando vozes individuais parecem sugerir o texto talvez esquecido. De um modo geral, a estreia de “Ifigênia em Áulis + Agamenon” traz um Luciano Alabarse diferente do que já se viu e a conclusão de que sua concepção sentimental é a única capaz de tornar isso tudo uma linguagem, um código que precisamos traduzir, norteará essa análise.

A produção passa a existir enquanto teatro alguns dias depois dos americanos festejarem (festejarem!) a morte de um homem (um assassino, mas um homem). Todo o espetáculo, visto como um todo organizado, se utiliza desse acontecimento além da narrativa como interlocutor para o seu próprio discurso. Para observar isso, vale colocar a peça de frente para o fato.

O personagem Agamenon, Rei de Argos e Pai de família, enfrenta um debate interno: ser um bom rei e atender à demanda de general do seu exército, sacrificando a vida da própria filha para atender a um pedido dos deuses a fim de conceder os ventos necessários para o início da batalha ou ser um bom pai e dizer não ao sacrifício e à guerra, mas, sim, à sua família. Os exércitos gregos passam dez anos na guerra iniciada pelo sacrifício de Ifigênia. A cidade de Tróia é destruída e Agamenon volta pra casa. O herói de guerra é vencedor. Mas a que preço? Morreram troianos e morreram gregos. Famílias foram destruídas. O objetivo da guerra se perdeu, mesmo que a batalha tenha sido vencida. Quando uma guerra, afinal, vale a pena?

Bin Laden liderou vários ataques terroristas, sendo o mais cruel e conhecido, a destruição das Torres Gêmeas de Nova Iorque no dia 11 de setembro de 2011. Muitas pessoas morreram. Os Estados Unidos lideraram vários países numa guerra contra os grupos terroristas, entre eles, o grupo de Bin Laden. Nessa guerra, muitas pessoas morreram. Poucos meses antes de completar dez anos desde a queda das torres, Bin Laden é assassinado. Os Estados Unidos são vencedores. Valeu a pena?

O diálogo estabelecido por Alabarse é interessante e valoroso. Numa produção de fazer inveja, seu espetáculo cumpre uma função estética, mas também uma função social: fazer refletir, que não é necessariamente uma função do teatro (a função da arte é existir), mas, em muitas manifestações, acontece positivamente. Há o apelo à emoção, à catarse. Os signos estão dispostos a nos fazer emocionar (os abraços apertados entre pai e filha, a entrada majestosa de Poseidon, a encenação do assassinato de Agamenon, a coração de Agamenon com a coroa de Ifigênia, são alguns exemplos maiores), sem margem para razão e força no moralismo. “O mundo que nós vivemos é um mundo que celebra a guerra dois mil e quinhentos anos depois?” Por isso, o espetáculo é coeso e coerente. Luciano, e por ele nomeamos todo o grande grupo de responsáveis artísticos, queria dizer algo e disse algo. Mas, então, qual é o problema de “Ifigênia em Áulis + Agamenon”?

Se a história, o drama, a trama favorece o interdiálogo, os meios com que ela se estrutura não. A ação de uma tragédia grega é interna. Os espectadores ouvem narrações de acontecimentos que se deram (ou se dão) fora de cena. Os discursos são pesados, com palavras difíceis e sintaxe complexa. Sobretudo, a forma como o autor entendia o mundo não é a mesma que nós o lemos, o que faz com que a conversa entre Agamenon e os Estados Unidos ser algo impossível, a menos que um domine o idioma do outro pelo menos. Qual é a língua de Eurípedes?

Não há sujeito nem objeto no mundo antigo, mas o destino. A relação não é de causa e consequência (se você for bom, será recompensado), mas apenas de conseqüências. São os deuses quem determinam a vida dos mortais e esses vivem a seu dispor, encontrando aqui e ali momentos em que pensam ter poder e, assim, parecem-se com os deuses, sem nunca, no fim, de fato, ser. Imortais, os deuses viverão para sempre e, por isso, a vida não tem o mesmo valor que tem para quem há de perdê-la um dia e de alguma forma. Nesse sentido, as tragédias gregas, assistidas por milhares de pessoas e que duravam dias, eram meios de purgação das emoções humanas, sempre lembrando os homens do seu lugar de submissão diante do destino que lhes foi traçado pelo Olimpo. Estava prescrito a Jasão que, um dia, se casaria com uma mulher bárbara e teria poder e glória, assim como, adiante, essa mataria seus próprios filhos. Édipo mataria o seu pai e se casaria com a própria mãe, tendo filhos com ela. Agamenon mataria a filha, ganharia a guerra e, depois, seria também assassinado pela própria esposa. Essa é a visão de mundo dos autores gregos.

Nossa sociedade entende a guerra terrorista e a guerra ao terror como opções de quem entra nelas. Os Estados Unidos e Bin Laden escolheram fazer o que fizeram e, por isso, foram sujeitos de sua história. Preso ao destino, o mesmo contexto não se dá no mito de Agamenon.

Personagens nobres, os protagonistas das tragédias são humanos que assumem o comportamento de deuses diante de seus súditos (os homens não são nem bons, nem maus numa tragédia, mas sempre vítimas de decisões superiores). É isso que norteia o Rei a, com dignidade, assassinar a sua própria filha. E a Rainha a assassinar o próprio marido. Eles não tinham outra escolha que não encarar o destino de forma submissa ou de forma hostil, mas sempre encarar o destino. Quando as cenas em que Agamenon e seu irmão Menelau debatem, ou quando Clitemnestra e Ifigênia argumetam com o Rei, o discurso foi dirigido de forma a nos deixar dúvidas de qual resposta ele daria. Essa dúvida confere a Agamenon a subjetividade que seu personagem não encontra enquanto unidade de uma estrutura narrativa milenar. Eu repito aquilo que tantas vezes já escrevi aqui: não há jeito certo e jeito errado de fazer teatro, mas um jeito encontra suporte em si mesmo e outros jeitos não. Muitos jeitos são possíveis, mas todos não. Alabarse constrói um espetáculo coerente, mas diversos elementos de sua estrutura funcionam como se atrapalhassem, tal qual um ruído chato que não deixa ouvirmos uma boa música em sua plenitude.

Bocas maldosas vão dizer que Marcelo Adams, Ida Celina e Carlos Cunha só sabem fazer esse tipo de personagem e sempre o repetem, do que eu discordaria principalmente no caso de Marcelo Adams. O que nos importa nessa análise é que esses três atores realmente são o que há de melhor em “Ifigênia em Áulis + Agamenon”, embora se encontre bons momentos nas interpretações de Eduardo Steinmetz e de Marcello Crawshaw. Suas vozes são seguras, firmes, bem postas. Nenhuma sílaba se perde e o discurso verbal, tão caro na tragédia grega, ganha nesses artistas lugar nobre para ser expresso. As suas interpretações ensinam aos colegas de cena e também da plateia a importância de prender as emoções no caso do personagem trágico, a retidão, o equilíbrio e a força que se manifestam pelo jogo de ritmo e não pela altura da voz ou pressão nas batidas de pé ao caminhar. Mostram que não é com expressões corporais (mancar, bater, revirar os olhos,...) que se dá a ver o personagem, mas, sobretudo, com o olhar e a clara intenção no dizer, dizendo bem. Adams, Celina e Cunha, embora com momentos de exceção nos dois primeiros, fogem da leitura sentimental e são incoerentes com aquilo que nos pareceu ser a concepção do diretor, essa lida a partir das “letras” por ele dispostas na “página cênica”. Suas rebeldias nos valem ouro!

Concluindo, “Ifigênia em Áulis + Agamenon” é mais um espetáculo de Luciano Alabarse pelo qual esperaremos pela sucessão. Depois de “Platão”, veio “Bodas de Sangue”. Se a regra se mantiver, em breve, um grande e excelente espetáculo a cidade ganhará.

*

Ficha técnica:

Adaptação / texto final: Luciano Alabarse
Direção: Luciano Alabarse
Cenário: Sylvia Moreira
Figurinos: Rô Cortinhas
Iluminação: João Fraga
Pinturas e Adereços: Adalberto Almeida
Trilha Sonora / Pesquisa Repertório: Luciano Alabarse
Divulgação: Bebê Baumgarten
Produção Executiva: Miguel Arcanjo Coronel, Fernando Zugno e Willy Boelter Jr.
Coordenação de Produção: Luciano Alabarse
Preparação Vocal Coro: Laura Backes

Elenco (em ordem alfabética):
Carlos Cunha Filho
Carolina Ramos
Cláudia Lewis
Clovis Massa
Eduardo Steinmetz
Fabrizio Gorziza
Fernanda Petit

Ida Celina
Juliano Canal
Laura Backes
Letícia Balle
Luciana Éboli
Luisa Herter
Lurdes Eloy
Marcello Crawshaw
Marcelo Adams
Maria Teresa Montoya
Mauro Soares
Rosângela Batistella
Taís Mattos
Thales de Oliveira
Vika Schabbach

2 Comentários:

Anônimo disse...

Rodrigo,

Fostes generoso com alguns atores, não sejas tão suave. Luciano Alabarse tem que parar de chamar sempre a mesma turma e apostar um pouco mais. Tem muita gente boa atuando em Porto Alegre que está mais preparada para este tipo de trabalho.

Anônimo disse...

Não concordo com muitas das colocações, mas opiniões, sejam de críticos ou dos espectadores, em geral, devem ser respeitadas. Valorizo o trabalho de Vika Schabbach e de Carolina Ramos, que encabeça o coro de mulheres muito bem aproveitado.Texto trágico deve ser dado como texto trágico e Luciano e o elenco partem desse princípio.
A. Mendes

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