30 de ago de 2010

Sobre saltos de Scarpin


Foto: Marcelo Daudt

Comercial e Experimental ao mesmo tempo

“Sobre saltos de scarpin” cheira a déjà vu quando coloca duas personagens femininas preparando-se para a luta contra/por seus machos. Mais uma peça sobre relacionamento homem x mulher, tão velho quanto o próprio teatro desde os tempos do ditirambo... A mim, vem a pergunta: como a jovem Tainah Dadda, em seu segundo trabalho como diretora profissional, vai tratar desse tema? Dizer o velho é sempre difícil, porque requer de (bons) encenadores a vitalidade de uma forma que surpreenda o conteúdo, que avance. Nesse resultado, Dadda consolida-se como uma diretora promissora, cheia de talento e competência, exemplar que nunca é demais em nossa cidade, ainda que não seja, felizmente, faltante.

O texto é uma atualização para o teatro de dois livros do cronista David Coimbra: “Mulheres” e “Jogo de damas”. E o jogo de diálogos se esforça em sustentar um discurso épico-narrativo que, se deixa o teatro algumas vezes frio e cansativo, dá importância a Coimbra, que é popular não só por seus temas, mas porque escreve de forma leve, cativante, envolvedora. Tão facilmente encontrado no texto brechtiano, a escrita em terceira pessoa, deixando externa as ações do personagem falante até quando é em primeira, domina o espetáculo no que diz respeito ao que é pronunciado pelos seis atores: três homens e três mulheres. Com forte cara de dissertação, a narração se situa em lugar secundário. Não é, pelo visto, de teatro dramático de que estamos falando aqui. Pelo quê, então, “Sobre os saltos de scarpin” nos pega?

A plateia cheia do Renascença encontra uma obra em que as cores são fortemente marcadas, dispostas a sustentar o conflito que, pelo exposto, não está nos diálogos. Cabelos brancos em vestidos pretos, azul sobre vermelho, xadrez. As cores da produção (Figurinos de Daniel Lion, Cenário de Zao Figueiredo e Iluminação de Bathista Freire) não exploram o contexto narrativo, porque não estão ali para ilustrar. Nesse trabalho, sua função é outra: existir, significar, extender e não ratificar, desaparecer, apontar. Três personagens masculinos se mostram como exemplares diferentes do homem, mas usam exatamente a mesma roupa. As formas dos casacos usados pelas atrizes é pontuda e, ao mesmo tempo, redonda. O vermelho dos Scarpin contrasta com o preto-branco do chão e com o azul do ciclorama. Não precisa ser Bob Wilson para explorar sem medo as cores que se tem, então sabemos.

Os atores também tiveram uma interpretação dirigida ao público a fim de concorrer com os demais elementos cênicos e não vencê-los. Os gritos e movimentos bruscos não são mais fortes que as cores, que as roupas, que o chão em xadrez. O tom naturalista das interpretações masculinas, tão distantes das do grupo de meninas, e nisso está a possibilidade de um outro conflito, os coloca como vítimas até que o jogo se inverta. Há inserções de um vídeo, um programa de televisão, em que uma mulher dá conselhos as suas telespectadoras e,depois, cobre uma situação de rebelião. O naturalismo se inverte, o duelo se modifica. Embora não consiga identificar destaques no grupo feminino, que se destaca enquanto tal, os homens, por construírem personagens exemplares, têm mais possibilidades. Paulo Salvetti é uma grande revelação: tem força em cena. É presente, carismático e bastante claro em suas ações. William Martins não deixa por menos e coadjuva produzindo alguns dos momentos mais interessantes da peça. Marcelo Pacheco varia a sua construção de personagem-figura de sensível a efeminada durante a peça, o que, salvo algum exagero irrecuperável,é coerente com a personificação de um homem hétero sensível. Quando passa disso, e isso acontece em alguns momentos, o conflito deixa de ser possível e passa a se estabelecer, o que não parece ser a proposta até aqui analisada.

Talvez uma das coisas que mais chama a atenção do público seja a trilha sonora (Arthur Barbosa) composta especialmente para o espetáculo num tempo feliz em que os grandes produtores sabem que isso é básico para uma obra considerável do ponto de vista de sua qualidade. As músicas entram sempre levando a narrativa para possibilidades sígnicas outras. Um exemplo: o texto diz que estamos no cinema: a música é de baile. A trilha não concorda com o texto, nem discorda dele. O fato de ir ao cinema é mais importante aqui do que o cinema em si. E se o ator, com sua força, diz: “Estou no cinema”, o espectador constrói o cinema e nada além é necessário. A trilha vem e faz pensar o cinema do ponto de vista do seu evento, do ritual em que há uma dança coreografada, uma codificação própria. E o mesmo tipo de participação acontece em outros momentos da obra elevando a qualidade desse espetáculo.

"Sobre saltos de Scarpin" ganhou FUMPROARTE. Um fundo que consiste na destinação de verbas públicas para a realização de espetáculos teatrais, entre outros projetos artísticos. Aqueles que reclamam de não ter segurança pública ou educação de qualidade, embora paguem seus impostos, desejam que o Estado (nação ou estado ou município) faça juz às verbas que recebe dos contribuintes e invista de forma inteligente o dinheiro. E quem o receba que o use de forma digna. Aqui temos um exemplo que, felizmente entre tantos, honra Porto Alegre, a capital mundial do teatro no mês de setembro. E nada menos.

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Ficha técnica: 

Elenco:
Joana Vieira
Paulo Salvetti
William Martins
Patrícia Lamachia
Marcelo Pacheco
Magda de Oliveira

Direção: Tainah Dadda
Preparação Corporal: Paulo Salvetti
Figurinos: Daniel Lion
Iluminação: Bathista Freire
Cenografia: Zao Figueiredo
Adereços: Maura Sobrosa
Trilha Sonora: Arthur Barbosa
Intérpretes: Arthur Barbosa, Camilo Simões e Rodrigo Bustamante (violinos), Gean Veiga (viola), Phillip Mayer (celo), Walter Shinke (contrabaixo)
Direção de vídeos: Ricardo Mendes
Direção de fotografia: Felipe Rosa
Realização: Origami Filmes
Identidade Visual: Ingo Wilges e Lucas Sampaio
Direção de produção: Cecília Daudt
Produção executiva: Cecília Daudt e Airton de Oliveira

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