5 de jun de 2011

A mulher sem pecado

Foto: Du. R. Maciel

Teatro para quem gosta de teatro

Se a produção dirigida por Caco Coelho e Beto Russo, “A mulher sem pecado”, fosse um arquivo digital, seria um daqueles que enchem a nossa caixa de emails, demorando uma vida pra carregar (mesmo num computador potente e com internet rápida), mas que, quando finalmente aberto, nos desse a certeza de que valeu a pena esperar. O espetáculo que torna teatro o primeiro texto dramático escrito por Nelson Rodrigues é cheio de informações, milimetricamente pensado e inteligentemente concebido. Embora pesado e, por vezes lento, conseqüência da carga imagética que o sustenta, é uma excelente opção para quem gosta de teatro ou para quem tem interesse em descobrir o que o teatro, quando em boas mãos, é capaz de fazer. Caco Coelho e Beto Russo conhecem, pelo que apresentam, a linguagem teatral e dominam várias de suas possibilidades. O resultado é uma peça cheia de valores estéticos, isto é, sinais de que é possível dedicar horas para a contemplação de cada um de seus muitos momentos, o que é, sem dúvida, digno de aplausos e boas plateias lotadas.

Escrito em 1941, “A mulher sem pecado” surge no mundo como literatura e como teatro junto com cinema noir. Coelho e Russo podem ter tido grandes inspirações nesse universo para re-produzir (produzir novamente) esse clássico do teatro brasileiro. Há sombras por todos os lados e o contexto é pantonoso, sórdido, criminoso. Dona Aninha, mãe do protagonista Olegário, dono da casa onde acontece a história, permanece o tempo inteiro a enrolar um eterno paninho. (A produção colocou um vídeo da atriz Vera Holtz interpretando a misteriosa personagem em cena. O objeto é bem próximo dos célebres Vídeos Portraits, de Bob Wilson, que o 17º Porto Alegre em Cena trouxe para a capital gaúcha em 2010. O olhar de Holtz, através da personagem silenciosa, espia, melindra, desprivatiza todas as ações, incluindo a nossa, a do público, observados por ela, que também tudo enxerga no palco.) O breu avança sobre o palco a cada nova cena, de forma que, quanto mais para o fim do espetáculo, mais escuro tudo fica. (Há uma cena, por exemplo, em que apenas a boca da atriz Vanessa Garcia é vista se movimentar.) Projeções tanto nas cortinas de fundo, como no invólucro transparente que cobre a boca de cena (“A vida é feita de som e fúria” e “A memória da água”, de Felipe Hirsch, foram outras produções teatrais que usaram muito bem desse recurso) dão a ilusão de vermos tudo através de lentes grande-angulares, em que a imagem é distorcida a fim do máximo possível de informação entrar em quadro, outra característica forte do cinema noir. A encruzilhada rodrigueana (personagens naturalistas em situações melodramáticas) ganha, nesse contexto estético-cênico, potência para acontecer de forma amplamente visual, estando a opção intimamente ligada ao contexto que a obra propõe enquanto texto escrito.

Lançado em 1938 na literatura (Daphne Du Maurier) e, em 1941 no cinema (Alfred Hitchcock), “Rebecca” faz pontes interessantes com “A mulher sem pecado”: ambas histórias são construídas sobre algo que não está presente. No primeiro, é Rebecca, a primeira mulher do Sr. De Winter, que assombra a jovem segunda esposa. No segundo, o ciúme doentio de Olegário constrói uma segunda Lídia. Há, assim, nas duas obras, duas personagens fortemente ligadas a co-habitar o mesmo espaço, uma assustando a outra, uma modificando a outra, uma influindo diretamente sobre a outra. Vanessa Garcia interpreta Lídia. Com os cabelos descoloridos e com um vestido rosa, a personagem se constrói como um elemento de contraponto na escuridão sombria de Olegário, garantindo o contraste cinematográfico. O triângulo está feito: a Lídia de Garcia é o ponto de fuga proposto por Coelho e Russo, nesse contexto claustrofóbico estabelecido pelo marido, interpretado pelo ator Luciano Mallmann.

A direção fez de Lídia e Olegário personagens e tornou as demais figuras elementos contextuais. Maurício, o irmão de Lídia (Bruno Fernandes); Inézia, a empregada (Pi Vieira); Umberto, o chofer (Alexandre Farias); e Dona Márcia, a mãe de Lídia e de Maurício (Lurdes Eloy) tiveram as tintas carregadas em suas construções, o que é positivo como ratificação da linguagem estabelecida. Suas ações são exageradas, grandes, expressivas. Suas participações são pontuais, funcionais, precisas. Quem assiste sabe que eles aparecem para movimentar a história, virar a página, dar andamento e ritmo para a trama. Eles são o ponto alto do melodrama: a empregada que tem um caso com o patrão, o chofer que tem desejo pela patroa, o filho homossexual (?), a mãe aproveitadora. Por outro lado, Lídia e Olegário, Garcia e Mallmann, são o realismo naturalismo: estilo que vê o mundo como um grande ecossistema, em que os personagens são conseqüência do seu meio, sem bons, nem maus, mas vítimas do mundo em que vivem. Numa cadeira de rodas e casado com uma bela mulher, Olegário não poderia ter outra coisa se não ciúmes de sua esposa. Atormentada por uma relação doentia, Lídia não tem outra saída para ser feliz se não deixar o marido.

Vanessa Garcia e Luciano Mallmann estão excelentes em suas participações, conferindo ao espetáculo, em tamanho maior, o ótimo resultado que seus pares oferecem em menores oportunidades. Vanessa é viva, é ágil e é forte em cena. Os desenhos manifestos pela sua voz e pelo seu corpo, nem sempre coerentes um com o outro, são significativos em todos os momentos, pois expressam, em vários níveis, a obra como um todo e os anseios da personagem em particular. Ao espectador, é dada a dúvida machadiana: ela traiu ou não traiu? Ela trai ou não trai? Lídia anda “em ovos” sob os vários olhares: Dona Aninha, Humberto, Olegário, Nós. Todos querem saber da vida dela, porque a história é contada a partir de Olegário. No final, ele é punido por ter se casado com uma mulher de má fama, tal qual Jasão, castigado por ter se casado com uma mulher bárbara. (Medeia, de Eurípedes).

Luciano Mallmann volta com a pompa da circunstância. Depois de dez anos sem atuar, desde que um acidente o fez perder os movimentos dos membros inferiores, ele retorna ao palco fazendo com que o sucesso de “A mulher sem pecado” fosse desejado por aqueles que o admiram como pessoa e como artista até então aposentado. Confesso que tive medo de assistir-lhe: como publicar uma crítica negativa de um homem que vence tantas barreiras a cada dia e retorna exibindo tanta coragem? Felizmente, ganhei a oportunidade de continuar sendo imparcial, isto é, de continuar não permitindo que informações alheias ao produto teatral afastem a análise de uma crítica estrutural. O ator Luciano Mallmann oferece a todos uma ótima interpretação. Sua voz não tem o peso que todo o resto de sua construção manifesta, o que destoa no início quando ainda estamos observando a peça. Ao longo da assistência, no entanto, essa entonação de sua voz se mostra como um sinal da infantilidade, da possível humanidade do personagem, esse preso numa cela que ele próprio construiu. Os seus olhares, os tempos de suas reações, os movimentos pelo espaço cênico cumprem o papel de dar peso para esse lugar, essa Manderley onde a família mora. Olegário é um personagem acuado pela fofoca, pela intriga, pelo moralismo que ele próprio reproduz. A opção da direção de transferir a cena com Joel, em que se conta o passado de Lídia, para a rua, pelo vídeo, é excelente, criativa, inovadora. O burburinho dos personagens sobre a esposa se mistura no burburinho do público que caminha para a audiência sem saber ao certo o que encontrará.A linguagem ainda ganha muitos pontos na cena final, o desenlace melodramático esperado, a libertação dos personagens pela qual se anseia, o desfecho. Vale a pena conferir.

Arregimentar todos os signos teatrais num código que se estabelece coeso e coerente, que faz pontes com outras obras, com outros tempos e, além de tudo isso, consegue engrandecer artistas como Nelson Rodrigues, Vanessa Garcia, Luciano Mallmann, e todos os nomes que fazem parte da ficha técnica exposta abaixo é uma grande tarefa. Em “A mulher sem pecado”, o êxito é absoluto. Parabéns aos responsáveis.

*

Ficha técnica:

Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Caco Coelho e Beto Russo

Elenco:
Luciano Mallmann
Vanessa Garcia
Alexandre Farias
Pi Vieira
Bruno Fernandes

Participações Especiais:
Lurdes Eloy
Sandra Alencar
Vera Holtz (em vídeo)
Zé Victor Castiel (em vídeo)

Direção de Arte e Cenografia: Vicente Saldanha
Iluminação: Fabrício Simões
Figurinos: Anelisa Teles
Trilha Original e Produção Musical: Loop Reclame
Direção Musical: Edu Santos e Edo Portugal
Música Tema: Bibiana Petek
Loops, Efeitos, Sound Design: Bruno Suman
Direção vídeo Vera Holtz: Alex Gabassi
Direção Vídeo V8: Rodrigo Pesavento
Luz espectral menina: Alexandre Fávero (Clube dos Sombras)
Cabelos e Maquiagem: Gotan Cabeças do Futuro
Preparação Vocal: Lígia Motta
Preparação Corporal: Carla Vendramin
Preparação Capoeira Alexandre Farias: Mestre Gororoba
Divulgação: Lauro Ramalho
Coord. Técnica: Zé Derly
Operação de Som: Zé Derly
Operação de Vídeo: Visual Áudio e Vídeo
Assistência de Produção: Manu Menezes
Produção: Luciano Mallmann
Vídeos: Zeppelin Filmes e O2 Filmes

5 Comentários:

Diego Ferreira disse...

Rodrigo, adoro Nelson rodrigues e quero conferir este trabalho quando retornar a cartaz! Fazia tempo que você não escrevia por aqui, não é! Leio sempre. Abraços!
www.escapeteatro.blogspot.com

Rodrigo Monteiro disse...

Eu também sempre te leio, Diego! Acho ótima essa troca de reflexões. Parabéns e vamos nessa!

lurdes disse...

Rodrigo, que crítica bacana, de fôlego! Valeu o esforço enorme de trabalho de toda a equipe. Agora estamos engajados em outro esforço - queremos teatrooo!
Beijo.

Andarilho disse...

Tua críticas andam parecendo mais uma série de homenagens ao Roland Barthes (e a ti mesmo) do que qualquer outra coisa.

Anônimo disse...

Odiei a peça. Atores nus durante grande parte da peça, apelativo e nada se compara com o texto original do autor. A história é mal abordada, dando apenas a conotação sexual da história.

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